A faxineira e nós

De vez em quando, alguém, normalmente mulher, clama indignada que ganha menos que faxineira, ou que injusto tradutor ganhar X, quando faxineiras ganham Y. Não gosto desse tipo de afirmação, mesmo quando verdadeira, por vários motivos.

Ser faxineira não é uma opção, ao menos para mim. Simplesmente não teria como levar a vida que minha faxineira leva e fazer o que ela faz. Estou com uma substituta, porque a minha “efetiva”, comigo há 15 anos, está de pé quebrado. A moça parece um furacão limpando o banheiro aqui do escritório, enquanto eu batuscrevo este artigo. Daqui a pouco, ela vai embora e fica a casa limpinha e cheirosa. O que ela fez em um dia, eu não faria em uma semana.

Para mim, me comparar a ela é como dizer “a pagar X por uma casa em São Bernardo do Campo, é preferível morar em Santana da Vaca Atolada”. Morar em Santana da Vaca Atolada, para mim, na atualidade, não é uma opção, mesmo que custasse um décimo do que custa morar na Grande São Paulo. Além disso, mesmo que ser faxineiro fosse opção lógica, eu não tenho a mais remota intenção de deixar de ser tradutor e, por isso, emocionalmente não seria opção. Dinheiro não é tudo na vida, bolas!

Tem mais. Não existe modo algum de calcular qual deve ser a proporção entre o rendimento de uma faxineira e o de um tradutor. Se a minha faxineira ganha dez, quanto deveria ganhar eu? Não me venha com discussões metafísicas do tipo “e o nosso estudo” e tal. Quero um número e a prova de que ele foi calculado com base em dados sólidos e procedimentos científicos. Não existe, não é possivel. A gente sente lá na tripa que deveria ganhar mais, porém é impossível dizer quanto mais, essa é a verdade.

Mas, agora, só para nós três aqui (você, a Kelli e eu), que ninguém nos ouça, imagine a seguinte situação. Um grupo de especialistas, com base em métodos e dados irrefutáveis, chega à conclusão de que a relação entre o que você ganha como tradutor e o que ganham as faxineiras está errada e que, como resultado dessa distorção, você está ganhando mais do que deveria. Você estaria disposto a abrir mão de parte do que ganha para “estabelecer a justiça”?

Claro que não. Não importa como vivamos e quanto ganhemos, a maioria de nós vai sempre querer mais conforto material, o que exige uma remuneração melhor. Dinheiro não é tudo na vida, mas é bom demais.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


8 Comentarios em "A faxineira e nós"

  • flavia franca
    01/02/2011 (6:05 pm)
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    Quero ver doutor pegar o balde cheio d’água , esponja, aspirador, (tudo isso pesa poxa)e esfregar porcaria!subir escada correndo risco de se lascar no chão; a maioria das faxineiras sofrem da coluna mas se o fazem é pela necessidade, pois se fossem doutoras contratariam tais como elas mesmas. De grão em grão.. diz o ditado! qual é o problema de uma faxineira 60,00 a diária, (média) fazer uma casa por dia na semana (contratada) de seg a sex supomhamos 60×5= 300,00 semana – 300×4= 1.200 ! JUSTO! mas só Deus e elas sabem o duro que é limpar chão que agente pisa, e privada.. cheirar lixo alheio, e aguentar cara de .. de patricinha xexelenta que nunca vai saber o que é pagar aluguel e prestação! háááá mas elas ganham comida… ÓBIVIO! é o mínimo… vai ser desumano e deixar a mulher limpar NOSSAS porcarias com fome? café com pão e suplemento (manteiga, queijo, patê..) almoço, e conforme o hs q elas forem largar lanche! SIM SENHOR! o que pago uma faxineira por semana, tranquilamente compro 4, 5 sapatos por mês, e deixo na balada toda semana … Então ó.. mão na conciência q elas tb são gente!

  • Marcelly Ferrari
    21/07/2010 (2:12 pm)
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    Falou e disse, Danilo. Assino embaixo (literalmente).

  • malu
    06/12/2009 (12:56 am)
    Responder

    ola tudo bem realmente ser faxieneira nao e facil tudo bem que ganha um pouquinho a mais deveria ganhar mais sabe porque ela faz em um dia o que muitas mulheres nao consegue fazer em uma semana e existe aquelas folgadinha que tem que explorar a faxineira a todas de mais valor nas faxieiras porque em breve elas seram extintas bjos

  • dha
    13/03/2009 (8:43 pm)
    Responder

    Olha, pra lidar bem com essa questão de dinheiro, recomendo o livro “A energia do dinheiro” da Glória Pereira =]

  • Danilo Nogueira
    12/03/2009 (1:06 pm)
    Responder

    Ah, Sibele, eu também tenho saudade de você e de umas tantas outras pessoas lá da 50302. A vida, entretanto, nem sempre é o que a gente quer. Quando você voltar ao Brasil, a gente se encontra de novo.

  • Danilo Nogueira
    12/03/2009 (1:04 pm)
    Responder

    Ah, Kelli, acho que não me fiz claro.

    As mulheres é que, normalmente, se comparam com as faxineiras, basicamente porque são elas as supervisoras do trabalho das diaristas. Essa é uma comparação tipicamente feminina. Os tradutores machos preferem outros tipos de comparação.

    Quer dizer, normalmente, é a mulher quem paga a faxineira, não o homem, por isso lhe acode a comparação.

    As comparações masculinas tendem a ser diferentes, raramente com as faxineiras. Outro dia, um colega reclamando do pouco que lhe tinham oferecido por lauda, perguntou “vocês sabem quanto um traveco qualquer está cobrando por um programa?”.

    Não, não sei. Mas cabe dizer que, mutatis mutandis, o que eu disse aí acima das faxineiras poderia ser dito dos travestis: não levo jeito para a coisa e prefiro ser tradutor, mesmo que pague menos.

    E, provavelmente você tem razão em dizer que os homens reclamam mais que as mulheres. Vocês deveriam reclamar mais. Como são a maioria da profissão, ia ter um efeito extraordinário na nossa vida.

    (Acabo de falar com a Kelli pelo telefone. A Telefônica diz que está arrumando uma meleca qualquer na conexão e que tudo deve funcionar em breve. Que passe um anjo e diga amém.)

  • Kelli Semolini
    11/03/2009 (11:47 pm)
    Responder

    Eu concordo também, exceto a parte do “normalmente mulher”. Creio que normalmente é mulher somente pelo fato de sermos a imensa maioria na profissão, nada mais. Homens, aliás, tendem a ser mais reclamões que nós. 🙂

    Logo eu estou de volta!

  • Sibele
    11/03/2009 (1:14 pm)
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    Excelente artigo, Danilo. Concordo em gênero, número e “degrau”, rs.
    (Saudades de você, viu?)


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