As Mulheres, de Novo

Ontem disse que não sabemos ao certo quantas mulheres traduziram e tiveram seu trabalho assinado por homens. A rigor, não é possível saber quem fez uma tradução, sabe-se, se tanto, quem disse que fez. Por isso que essa historiada toda de regulamentação da profissão é balela. Vai-se saber que a tradução leva a assinatura de Alfa Beta da Gama, CRT 176-671, mas se foi a Alfa mesmo que traduziu ou se foi a Zeta Omega, que nunca se registrou para nada, é quase impossível determinar.

Mas eu queria falar das mulheres, de novo, para encerrar este assunto, enquanto é tempo.
Para falar delas, vou citar o exemplo de Fanny Cäcilie Hensel, mais conhecida pelo seu nome de solteira Fanny Cäcilie Mendelssohn, irmã do compositor Felix Mendelssohn Bartholdy. Fanny era brilhante musicista e deixou mais de 400 composições, nenhuma das quais publicada em seu nome durante sua vida, porque não ficava bem para uma moça de família ser compositora. Isso de compor era coisa de homem.

Contra os desejos da família, seu irmão Felix chegou a publicar algumas das obras dela. Mas não teve coragem de publicar sob o nome da irmã: publicou sob o seu próprio. Restou à pobre Fanny o gostinho de saber que, quando o irmão foi tocar numa audição particular para a rainha Vitória, sua majestade, sem saber da história, escolheu exatamente as composições de Fanny, dizendo que eram as mais belas de quanto Felix tinha escrito.

Quantas vezes aconteceram coisas semelhantes com tradução, jamais vamos saber. Quantas mulheres terão traduzido desde livros até cartas comerciais e visto seu trabalho apresentado como de seus maridos, será sempre um segredo.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


2 Comentarios em "As Mulheres, de Novo"

  • Danilo Nogueira
    31/10/2009 (12:36 pm)
    Responder

    Melancólica sim, muito triste. Era uma mulher de valor. Mas não foi a exceção: Gustav Mahler, ao se casar com Alma Schindler, 20 anos mais nova que ele, cultíssima e bonita demais da conta, fez questão de que ela abandonasse a composição.

    Ela concordou, mas, tempos depois, deu ao marido um lindo par de chifres. Aí, ele se arrependeu e começou a dar uma força para a composição dela. Mas já era tarde, tinha passado o impulso.

    Uma pena. Perdeu ele, perdeu ela, perdemos nós todos.

  • Raquel
    30/10/2009 (3:22 pm)
    Responder

    Que melancólica a história de Fanny…


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