Cliente cancelou, agência não quer pagar

Escreve uma colega que enfrenta um problema com uma agência. Nessas horas, faço lá meus comentários, mas não cito o nome das pessoas envolvidas, para proteger a ambas. Da colega, porque pode depois sofrer represálias, da agência, porque não fui lá ver o que eles dizem e nem tenho condições de apurar a verdade do caso. Então, melhor é analisar o assunto, assim, digamos, em tese, para ver se desenvolvemos um parâmetro, uma diretriz.

A colega trabalha para uma agência há algum tempo, sem maiores problemas. Recentemente, foi chamada para um serviço e disse que o prazo era muito curto. A agência ofereceu um prazo maior e a colega aceitou o serviço e entregou o serviço antes do prazo prorrogado. A agência avisou que não podia pagar porque o cliente, dado o descumprimento do prazo inicial, tinha cancelado o serviço e não ia pagar.

Situação comum e irritante. Algumas agências têm um padrão duplo de comportamento: de um lado, não querem que o tradutor se comunique com o cliente, sob a alegação de que o cliente é delas, não do tradutor. Estou plenamente de acordo e jamais entro em contato com cliente de agência salvo com a autorização da própria agência: acho de uma falta de ética única. A decorrência dessa vedação é que o cliente do tradutor é a agência e é a agência a responsável pelo pagamento, o que quer que aconteça entre a agência e o cliente final.

O problema, entretanto,  deve estar mais na falta de formalidade nas relações entre agência e tradutor — ou de agência e cliente o que é pior. Para cada serviço, exija um pedido ou ordem de serviço ou ao menos um e-mail formal do seu cliente/agência dizendo que aceita a entrega para o dia tal a tantas horas. Aí, há pouco que discutir. Se o cliente final cancelar, você não tem nada que ver com isso, mas manda a etiqueta e a diplomacia que você acate um aviso de cancelamento vindo da agência — desde que te paguem pelo que você já fez. Quer dizer, se o cliente cancela, a agência tem de te avisar imediatamente, para você parar e te pagar o que foi feito.

Vale a pena reclamar com a agência? Não sei. Algumas agências têm a norma de que quem reclama não leva mais serviço. Não sei se a sua agência é desse tipo e não sei se você está em condições de perder esse cliente agora. Por outro lado, se você não reclama, a turma acostuma e abusa ainda mais. O problema aí é se você tem como documentar a sua posição. Se vocês conversaram e ficou tudo de boca, perca as esperanças. Tem que documentar por escrito.

De um modo ou de outro, eu tomaria a iniciativa de procurar outros clientes, agências ou não, e me afastaria dessa gente com a possível rapidez.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


12 Comentarios em "Cliente cancelou, agência não quer pagar"

  • smith
    08/03/2010 (2:19 pm)
    Responder

    Mas é tão subjetivo assim quero dizer, e impossivel ganhar bem pra caramba traduzindo bastante serviço e com bastante organizaçao e com bastante disciplina e com bastante responsabilidade e com bastante clientes e com muita vontade de trabalhar.
    Ficar rico ou podre de rico eu sei que não dá mas pelo menos ganhar bem.
    Quando eu digo bem sei que e relativo mas para mim é de por exemplo 3.000 a 5.000 por mes.
    É possivel isso sim ou não?
    É a única resposta pela qual minha alma anseia!!!!

  • Smith
    05/03/2010 (6:58 pm)
    Responder

    Eu fiz a mesma pergunta em outro post mas não me lembro em qual e por isso vou perguntar de novo.
    Eu queria saber quanto um tradutor ganha mais ou menos ou quanto no mínimo dá pra tirar na pior das hipóteses . Eu sei que voce Danilo nao vai me responder porque é relativo de tradutor para tradutor.
    Mesmo assim queria saber se é táo pouco que um tradutor ganha porque eu leio muita coisa na internet e parece que tradutor ganha so um salário mínimo de 4 em 4 mêses.
    Estou curiosíssimo para saber.
    Alguem ou o Danilo ou a Kelli por favor me responda.
    Meu e-mail é [email protected]

    • Kelli
      05/03/2010 (10:22 pm)
      Responder

      Alan, não é um salário mínimo a cada 4 meses, mas ainda não vi ninguém ficar podre de rico traduzindo. Dá pra levar uma vida digna, embora isso seja bem subjetivo.

  • Márcio Badra
    28/02/2010 (6:01 pm)
    Responder

    É sempre conveniente conversar [polidamente] com a pessoa mais graduada que você conhecer na agência. Às vezes não é política da empresa, mas simplesmente um aprendiz de trainee de gerente de projeto tomando uma decisão sem falar com o chefe.

  • Léia Santana
    19/02/2010 (2:36 pm)
    Responder

    Uau!! que sonho…cobrar por tempo utilizado na revisão ou tradução….quanto mais leio seu blog, mais te admiro. Sei que é uma caminhada…e portanto, depende muito mais dos meus pés que de qualquer outra coisa…abraços

    • danilo
      02/03/2010 (10:20 am)
      Responder

      Não é fácil e tem que contar com a confiança do cliente. Mas é exequível.

  • fernando
    19/02/2010 (10:55 am)
    Responder

    No grupo do yahoo trad-port, ha’ uma discussão sobre “question about working in brazil”. Este blog trata desse assunto com frequência, por vezes não diretamente. Mesmo assim, acho que um post com esse tema seria bem interessante. Abraços

    • danilo
      19/02/2010 (2:06 pm)
      Responder

      Vai ser um dos próximos assuntos do blogue. Obrigado pela visita e sugestão.

  • Raquel Schaitza
    16/02/2010 (11:43 am)
    Responder

    D.

    Mas aí chegamos ao âmago da “questã”. Meu sonho é quando crescer cobrar por tempo. Acho que seria a forma mais justa. Mas não rola, né? E sei lá como acertar o serviço com um cliente normalmente e, na eventualidade dele cancelar, tirar da cartola uma “cobrança parcial por tempo gasto”.

    Também não entregaria serviço incompleto, como já não entreguei, preferindo absorver o preju. Foi só uma divagação carnavalesca.

    Raquel Schaitza

    • danilo
      17/02/2010 (2:05 pm)
      Responder

      Eu cobro, de vez em quando, principalmente para revisão. Uma vez, um cliente reclamou, que eu tinha cobrado um tempo desproporcional ao tamanho da tradução. Respondi que o tempo gasto não era diretamente proporcional ao tamanho do texto, mas sim inversamente proporcional à qualidade.

      Fui pago, mas alguém perdeu o cliente.

  • Raquel Schaitza
    16/02/2010 (9:27 am)
    Responder

    Oi Danilo,

    Mais no terreno das hipóteses do que de experiências reais traumáticas, pergunto como lidar com essa situação do “paga pelo que já está pronto”. Já me aconteceu do cliente me mandar um trabalho dia 10 e aprovar o prazo para dia 20. Começo a trabalhar e no dia 15 ele e-maila cancelando e, muito honesto e justo, já vai dizendo que “paga pelo que já foi feito”.

    Não sei vocês, mas eu sinceramente não tenho a menor noção do que cobraria num caso assim. No dia 15, metade do prazo, meu trabalho estaria meio feito, meio não, cheio de realces em amarelo que eu ainda iria conferir, ainda preciso dar minha tradicional lida final de trás prá frente, quero pesquisar melhor alguma coisa de vocabulário que ainda incomoda, pulei um parágrafo meio obscuro porque já estava com sono… sabe cumé. Ou seja, naquele momento o trabalho cancelado será um espantalho.

    Pior se o cliente disser “me mande o que está pronto e quitamos esta parte”. Passo a ser vendedora de colcha de retalhos? E ele vai arquivar isso como produto do meu (semi)trabalho para a posteridade?

    Nas pouquíssimas vezes em que me ocorreu algo do gênero, não entreguei nada, nem cobrei nada. E mais de uma vez ainda tive a sorte do cliente tempos depois voltar atrás e querer o trabalho pronto.

    Beijo,

    Raquel

    • danilo
      16/02/2010 (9:46 am)
      Responder

      O cliente tem duas possibilidades: ou você dá acabamento no que fez e e entrega em, digamos 48 horas, cobrando o preço combinado; ou você não entrega nada e cobra só pelo tempo gasto para fazer a minuta.

      Entregar serviço se revisar, nem morto. Já fiz, já tomei o coice, não faço mais.


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