Congresso: João Roque Dias

O problema do JRD é que ele é grandalhão, fala alto e sem parar, tendendo a dominar a conversa onde estiver. Por isso, nem sempre se nota que, oculto atrás da barragem de observações politicamente incorretas e piadas de todo o gênero, o homem tem muito conteúdo.

Fez três palestras no Congresso, estive presente a todas e estou ansioso pela prometida divulgação pelo site da ABRATES, porque valem o tempo da releitura e ponderação.

Na primeira, falou como tradutor e analisou nossa condição profissional. Na fila do gargarejo, eu dava gargalhadas que foram registradas pelos colegas no Twitter. Mas, quando ele terminou, levantei-me para aplaudir o conteúdo, não as notas humorísticas. Isso de levantar-se tem seus riscos, principalmente quando se está na primeira fila, sem poder ver os outros. Mas olhei em volta e estavam todos de pé — e o gigante que nos falava, emocionado com o calor da acolhida, pela primeira vez sem saber o que fazer com as mãos.

Não dá para resumir a palestra aqui. Mas vou lembrar só um fragmentozinho. O JRD, que é engenheiro e gosta de números, nos contou de uma pesquisa onde se determinou que 85% dos formados em tradução abandonam a carreira no primeiro ano e que a metade dos 15% restantes a abandona no segundo. Abandonam, não por desgostarem de traduzir, mas sim porque não aguentam o tranco. Caem, vítimas das práticas predatórias dos clientes, que se locupletam de sua ingenuidade profissional, prometendo maravilhas e entregando maravalhas. Caem, mas são logo substituídos por outra horda de novatos inexperientes, porque tradução é curso da moda. Por isso, os sobreviventes estão sempre concorrendo com a massa inocente, com os que acreditam que “tradutor ganha no volume” e que é possível viver bem à força de cinco centavos por palavra. Grave, isso, muito grave.

No dia seguinte, JRD falou sobre unidades de medida. Aí, falou o engenheiro, mostrando as bobagens que dizemos com unidades de medida e respondendo a mil perguntinhas que jamais fazemos, mas deveríamos ter feito. Finalmente, veio a palestra do português, que falou como cidadão amante de sua língua, irritado e envergonhado com a idiotice geral do tal acordo ortográfico e com a cretinice sabuja de nossos governantes. Se serve de consolo, parece que mesmo em Portugal não faltam idiotas no governo.

Para compensar, o JRD deu a pisada na bola mais divertida do Congresso: aceitou um chimarrão e usou a bomba para mexer a erva, o que quase leva a Brigada Militar a invadir Portugal.  Mas a turma perdoou, porque o JRD já estava nos corações de todos.

Por hoje, é só.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


2 Comentarios em "Congresso: João Roque Dias"

  • João Roque Dias
    27/03/2010 (7:25 pm)
    Responder

    Caríssimo Danilo: uma delícia, esta tua crónica sobre a minha participação no Congresso da ABRATES. Um verdadeiro prazer em voltar a ver-te (desta vez em tua casa). Ficas perdoado por teres sido o primeiro a levantar-se para o aplauso final: e, como disseste, fiquem mesmo sem saber onde pôr as mãos.

  • Felipe
    25/03/2010 (5:03 pm)
    Responder

    Danilo, gostaria muito de ter ido a POA, mas como não pude, vou tentar recolher o máximo de informações possíveis sobre o evento dos seus artigos, para que no próximo não pense nem duas vezes antes de me inscrever. Quanto ao texto, a informação estatística de desistência na profissão corrobora a porcentagem de desistência do própio curso de tradução, pelo menos lá onde estudei. Se não abandonam no primeiro ano, no segundo é certeza que haverá uma debandada em massa. Dos 31 que entraram comigo, apenas 20 terminaram o curso, e pelo que sei, apenas dois exercem a profissão fielmente. É uma pena, eu estou lutando para não abandonar o barco, mas a concorrência é cruel apesar de não aparente.


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