Cooperativas de tradutores

Interrompo um momento a série sobre preços e calotes para falar sobre cooperativas. A cooperativa é vista por muitos como a salvação da lavoura. A turma vê as agências como um bando de ladrões e exploradores do tradutor e acha que, com uma cooperativa, as coisas iam dar mais certo.

Muitas agências são, de fato, desonestas e muitas mais são simplesmente mal administradas, sem contar que há ainda uma grande quantidade que não tem capital suficiente para financiar suas operações, um problema mais freqüente e mais grave do que se pensa. Mas aqui estamos para falar de cooperativas, não de agências.

Antes de mais nada, se você ainda simplesmente se diz “freelance” ou o que é pior “frila”, acho que é bom ler isto e isto para deixar de se enquadrar em uma categoria que não existe.

Indo ao assunto, se você entrar para uma cooperativa, tem que entrar ou como autônomo (“RPA” ou “Nota da Prefeitura”) ou como estabelecido (empresário individual ou membro de uma sociedade – Nota Fiscal de Pessoa Jurídica com CNPJ). Entrar de gaiato, não pode. Se você entrar como autônomo, a carga tributária sobre os seus serviços aumenta em cerca de 20% e esse aumento vai ter um efeito ou no preço final cobrado do cliente ou na sua retirada.

No capítulo atendimento, a cooperativa funciona da mesma forma que uma agência: tem que selecionar tradutores e revisores, achar clientes, fazer propostas, cotar preços, distribuir o trabalho, coordenar produção, revisão e entrega, cobrar e receber do cliente, manter registros, pagar tradutores e o que mais seja.

Na agência, esses serviços são financiados com a margem, quer dizer, com a diferença entre o que a agência cobra do cliente e o que ela paga ao tradutor. Numa cooperativa, o procedimento é o mesmo, mas os cooperados podem se juntar para dar conta dessas tarefas, em vez de contratar quem faça. Por exemplo, um trata de vendas, outro seleciona tradutores, mais um cuida da papelada, outro ainda distribui serviço e assim vai. Isso toma um tempo danado e, lá pelas tantas, esse pessoal vai ter que ser remunerado, porque vão ter muito menos tempo para traduzir que seus colegas.

Com o decorrer do tempo, talvez seja necessário contratar profissionais para essas tarefas, para que os tradutores tenham tempo de traduzir. Esses profissionais custam dinheiro, dinheiro que a cooperativa tem que tirar do bolso dos cooperados, porque da cartola não podem.

Muitas vezes, dá problema. A cooperativa seleciona trinta tradutores competentes para cooperados e, lá pelas tantas, encarrega Alfa de atender um cliente e Alfa, que está entalado com outros problemas, só essa vezinha, repassa o trabalho um lorpa que não é cooperado. Quando terceirizou o trabalho para Beta, Alfa tinha se prometido revisar tudo letra por letra, mas acontece que, pô. E quando acontece que pô, a coisa complica. Então, sai uma porcaria e tem que puxar as orelhas do colega, eventualmente excluir da cooperativa.

Nunca se esquecendo que cooperativa é como vaca: dá leite, mas precisa de capim. E se você entender a cooperativa como uma entidade que te manda serviço, cabe perguntar quem vai conseguir serviço para a cooperativa? Ou você, voluntariamente, entrega todo o serviço que receber de clientes particulares e deixa que a cooperativa retire sua parte e, eventualmente, distribua entre diversos cooperados, ou alguém, lá na cooperativa, é encarregado de vender serviço e remunerado por isso. Caso contrário, primeiro, seca o leite e, depois, a vaca, coitada, morre de fome.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


1 Comentario em "Cooperativas de tradutores"

  • Carlos Dias
    17/07/2015 (4:35 am)
    Responder

    Muito bom.

    O grande problema, se me permite acrescentar, são os coopergatos ou cooperfraudes, que de cooperativas não têm nada. São arapucas que exploram os já explorados tradutores (e outros profissionais). A cooperativa de verdade é outra coisa.

    E dá trabalho fazer uma de verdade, mesmo porque aceitamos a exploração e aceitamos centavos por um trabalho qualificado. A gente não se dá o mesmo valor que um eletricista, encanador, pintor — capazes de dizer não e virar as costas, pensando: faça você, então.

    Levamos anos e anos para dominar uma língua e aceitamos remunerações que nem analfabetos no próprio idioma aceitam.


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