De novo, firma, RPA, essas coisas

Caro Danilo e Vera,

Bom dia!

Meu nome é Adriana e depois de vários anos estou interessada em voltar para o mercado de interpretação. Sei que vocês são tradutores, mas o que tenho a perguntar com certeza poderão me responder.

Já li vários artigos de vocês sobre a questão sobre montar empresa x ser autônomo.

Todos muito claros, ou seja, parece que está claro que montar uma empresa determina o fato de poder angariar clientes pessoa jurídica e realmente entrar no mercado.

Bem, o que eu gostaria de saber é se empresa de tradução ou mesmo no meu caso eu gostaria de montar uma que fosse empresa de interpretação, se a empresa poderá se enquadrar no famoso novo super simples. Ou se você sugere algo diferente. OU ainda se você me dá dicas de como procurar saber disso direitinho. Já olhei site sebrae, e tem uma empresa individual, enfim, ainda não destrinchei, mas se puder me dar umas dicas para eu fazer uma busca mais orientada na internet sobre onde se enquadra uma empresa de tradução ficarei feliz. Ainda, não quero falar com contador, desejo primeiro dar uma geral e depois verificar se vai ser isso mesmo, abrir empresa. Pois também não tenho certeza se no mercado de tradução ainda se usa muito o tal RPA.

Agradeço,

Bom Domingo,

Adriana

O que você leu acima foi mandado em forma de comentário a um outro artigo, por uma falha aqui da casa: ainda não temos um formulário para contato, que a Kelli deve estar providenciando ainda hoje. Em vez de aprovar o comentário, que ficaria necessariamente fora de lugar, estou respondendo separadamente.

Adriana, se você ainda tem dúvidas, posso — e vou — fazer duas coisas: dizer como a minha firma está estruturada e recomendar a você que procure um contador. Eu sei muita coisa, mas o contador é o profissional indicado para cuidar dos seus negócios, principalmente porque, nessa área, sabe muito mais que eu. Ao procurar um contador, siga a norma que você gostaria que nossos clientes seguissem: não procure simplesmente o mais barato. Serviço profissioal não é mercadoria. Coca-cola de latinha é tudo igual, então você compra onde for mais barato. Mas serviços profissionais não são todos iguais e nem sempre é grande vantagem pegar o que “faz mais em conta”.

A minha firma é uma sociedade simples, organizada como sociedade limitada, e tributada pelo lucro presumido. Minha sócia era a Vera, mas depois do falecimento dela, em 2008, é o André, meu filho. A Vera também era tradutora, o André não entende nada de tradução — nem tem por que entender, porque a lei não obriga o sócio de uma firma de tradução a ser tradutor. Meu filho tem 1% do capital social da firma, o que também é perfeitamente legal. Essa estrutura tem me servido perfeitamente.

Há sérias dúvidas sobre a possibilidade de o SIMPLES e o SUPERSIMPLES, que nada tem que ver com a “sociedade simples” se aplicarem a firmas dedicadas à tradução e interpretação e o SUPERSIMPLES, ao que eu saiba, tem um limite de faturamento muito baixo. Mas isso, repito, são coisas a discutir com um profissional da área. Eu cheguei no limite do que podia dizer com responsabilidade.

Para não dizer que não respondi sua pergunta por inteiro, o RPA é perfeitamente legal e mesmo bons contadores vão recomendar que você se registre como autônoma e emita RPA.  O problema é que a maioria dos clientes, hoje em dia, se recusa a trabalhar com quem emita RPA, preferindo trabalhar com quem emite Nota Fiscal de Pessoa Jurídica.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


24 Comentarios em "De novo, firma, RPA, essas coisas"

  • Davi
    11/11/2010 (3:26 pm)
    Responder

    Olá, a situação é simples.

    1 – A lei só permite emitir nota como TRADUTOR se voce tiver uma empresa com lucro presumido, isto é, pagando 16,25% de imposto sobre o valor total + contador + INSS.

    2- É possível emitir nota realizando serviço de tradução?
    Sim, é possível, como instrutor de idiomas( consulte micro empresario individual na sua prefeitura ) ou abrindo qualquer outro tipo de empresa e mandando um embromation na descrição do serviço( conheço gente que faz tradução e justifica como roteiro de cinema ). Cada símio em seu ramo, como parafraseou o colega acima.

    Conclusão disso tudo:

    O Brasil é um absurdo, tem taxas ridículas, todo mundo tá na merda?
    Resposta: Sim e não. Sim, as burocracias em cima da tradução são altas e indispoem a abertura de firmas legais. Por outro lado, é uma profissão livre e ampla, que não lhe cobra muito no sentido academico. Não estou defendendo a picaretagem, mas ao menos não somos serviçais da OAB ou qualquer outra instituição. Qualquer um pode ser tradutor, cobrar o valor que o sindicato quiser ou 3 centavos por palavra. Porém, para abrir firma com lucro presumido, só cobrando o que o site do Sintra recomenda mesmo( ou mais ).

    Abraços.

  • Julia
    01/10/2010 (10:25 pm)
    Responder

    Oi Danilo e Kelli,

    estou às voltas com o contrato que o contador está redigindo para minha empresa, e minha dúvida é a seguinte: ele diz que a sociedade deve ser empresária, mas tudo o que leio aqui e alhures me diz que é simples. Há um impedimento para a sociedade de tradução ser empresária? Se não, há alguma desvantagem?

  • Soraya
    27/09/2010 (2:11 pm)
    Responder

    Olá Danilo e Kelli,

    Parabéns pelo seu trabalho e obrigada por fazê-lo, pois, apesar de conhecê-lo há pouco tempo, é uma grande fonte de informação.

    Esse artigo e esse assunto não são de hoje, mas espero ainda poder fazer um comentário. Estou também no dilema de escolher a melhor forma fiscal de trabalhar e noto que a sociedade simples com regime de lucro presumido é, entre as poucas opções, a melhor delas para um profissional tradutor. Porém, como se faz com as parcerias?

    Mais claramente: se sua empresa é uma sociedade simples constituída com seu filho, como funciona a parceria com a Kelli? Estou nessa situação: somos um grupo de 4 tradutores mais ou menos iniciantes, eliminamos a possibilidade de cooperativa e queremos constituir uma sociedade, mas nem todos podem ser sócios.

    Voltamos ao ponto de partida?

    Fico indignada como as leis dificultam tanto a vida de tradutores e interpretes, quando essa, além de já ser difícil, não garante nem de longe a renda a que se equipara outros profissionais autônomos, como consultores e advogados!

    Obrigada,
    Soraya

  • onofre
    05/02/2010 (4:55 pm)
    Responder

    ola, gostaria de saber se como pequeno empreendedor emitindo nota fiscal, pago menos imposto do que emitindo rpa.

    • danilo
      05/02/2010 (7:05 pm)
      Responder

      Até um dado limite, é de fato, mais barato ser autônomo. Nunca me lembro qual é, porque a clientela dos raramente aceita trabalhar com autônomos, portanto, para nós, o problema não se coloca.

  • Adriana de Albuquerque Maranhão
    03/02/2010 (8:09 pm)
    Responder

    Oi, Raquel,
    Sabe que eu morei em Ctba entre 19942 e 1997. Meu pai é daí e tenho vários parentes aí, meus primos de primeiro grau e vários outros graus e tios e tias até hoje!!! E tenho uma amigona daí que também tem uma empresa de tradução, só tradução, não interpretação!!

    Sim, me esclareceu bastante, mas sei que já já vou querer trocar mais umas idéias com você. Assim, que em breve estarei aqui, com uma pequena listinha de dicas!
    Se não se importar é claro!
    Um grande abraço,
    Adriana

  • denise bottmann
    01/02/2010 (4:35 pm)
    Responder

    só para lembrar, como sempre, que nos casos de traduções protegidas pela lei de direitos autorais o que vale é o ccda entre pessoa física (o tradutor) e o encomendante. transcrevo aqui a posição do minc a esse respeito: “essa situação de atuar como um prestador de serviços é um equívoco. é uma coisa a ser resolvida através de uma mediação com os órgãos públicos que equivocadamente querem cobrar por isso […] a obra sob encomenda é regida por um contrato de transferência de direitos, não de prestação de serviços. são duas coisas distintas”.

    imagino que muitas obras de tradução técnica e comercial devem estar protegidas pela lda – quem sabe a abrates não faz uma consulta e a mediação com “os órgãos públicos que equivocadamente querem cobrar por isso”?

    • danilo
      01/02/2010 (4:42 pm)
      Responder

      Você deve estar com a razão, mas eu ainda vou voltar a escrever sobre o assunto, num tópico especial, para o qual espero a sua presença.

  • Maria Paula
    01/02/2010 (2:58 pm)
    Responder

    Foi ótimo! Decidi pela tradução naquele dia, graças à sua palestra (nós temos várias opções de carreira depois da Ibero). E foi uma escolha da qual nunca me arrependi. E tenho certeza de que você inspirou muitas outras pessoas 😉

  • Maria Paula
    01/02/2010 (1:38 pm)
    Responder

    Essa mesmo!

    • danilo
      01/02/2010 (2:53 pm)
      Responder

      Foi um dia muito divertido. Nunca tinha falado em um teatro, com as luzes sobre o meu rosto, incapaz de ver coisa alguma na plateia. Mas até que não me sai mal.

  • Maria Paula
    01/02/2010 (12:59 pm)
    Responder

    Sem dúvida! E viva a liberdade de expressão. 🙂 Persona non grata na Unibero? Bom, perda deles! Se você puder, e sem querer fazer merchand, mas já fazendo, visite o meu blog totalmente iniciante: Mobile Translator (http://mobiletranslatorblog.blogspot.com). Ofereço dicas para quem quer trabalhar fora de casa, dentro do banheiro, de ponta-cabeça, debaixo da cama etc. (hehehehehe)

    • danilo
      01/02/2010 (1:27 pm)
      Responder

      Você deve ter visto uma palestra que eu fiz no Ciati, ainda no século passado.

  • Maria Paula
    01/02/2010 (12:31 pm)
    Responder

    By the way, sou sua fã 🙂 Assisti a uma palestra sua na Unibero, foi dez!

    • danilo
      01/02/2010 (12:39 pm)
      Responder

      Deve fazer muito tempo. Não sou mais exatamente o que se pode chamar de persona grata por aquelas bandas.

  • Bete Köninger
    01/02/2010 (12:22 pm)
    Responder

    Danilo, acho até que isso é resultado direto de como o próprio tradutor quer se colocar no mercado. Para agir como profissional, como o nome do seu blog já diz, mais cedo ou mais tarde vai ser obrigado a sair da precariedade (já nem digo ilegalidade) e aí o jeito é encarar a burocracia que vem com isso. E eu prezo muito a minha liberdade como autônoma, mas tenho plena consciência de que ela é muito relativa. Cresci com um pai comerciante e sei que posso não ter um patrão nas costas, mas alguns clientes valem por dez dele!

  • Maria Paula
    01/02/2010 (12:19 pm)
    Responder

    Oi, Danilo!
    Não foi isso que quis dizer, não 🙂 Acho que não fui muito clara. O que quis dizer foi: independentemente da discussão jurídica. Mas não acho que trabalhar sem RPA seja bom ou indicado. Trabalho há 8 anos como tradutora e sempre emiti RPA. O que eu observo quando não se é pessoa jurídica é que sempre fica aquele ar de “funcionário”, não se tem clientes próprios, apenas colabora-se com as agências. É isso!

    • danilo
      01/02/2010 (12:42 pm)
      Responder

      Ah, sim, agora entendi. A maioria dos “clientes diretos” não aceita RPA, o que força a existência dessa situação. Tudo está ligado às políticas trabalhistas e tributárias do governo federal — mas esse é um assunto complicado demais. De um modo ou de outro, Maria Paula, com esse nosso bate bola, os possíveis incautos ficam mais bem informados. Blogue é isso: escreve, comenta, responde, esses troços.

  • Raquel Schaitza
    01/02/2010 (12:11 pm)
    Responder

    Olá Adriana,

    Se te ajuda, tenho uma empresa de interpretação em Curitiba há mais de 15 anos, com a mesma estrutura do Danilo. Somos 3 sócias atualmente e a cada anúncio da possibilidade de enquadramento em Simples, Super Simples e similares nosso contador analisou criteriosamente e concluiu que não valia a pena mudar. Sou leiga no assunto, mas sei que um aspecto importante a considerar é como o dinheiro vai passar da Adriana pessoa jurídica para a Adriana pessoa física como distribuição de lucros (espero não estar dizendo besteira, acho que é isso). Para nós, passa como rendimentos não tributáveis porque já paguei um monte de imposto sobre NF que emiti como pessoa jurídica. Ou seja, não pago nada a mais quando declaro meu imposto de renda de pessoa física.

    A imensa maioria dos meus clientes é direta, mas já aconteceu de eu dar NF para agências ou até para empresas de outros colegas intérpretes que precisaram de nós para completar a equipe e, nesse momento, nos “agenciaram”. Legalmente, não há como escapar de NF. Como o Danilo disse, a alternativa é o cada vez menos aceito RPA. O cliente não quer e tenta dar um RPA para um colega para ver a reação! 🙂

    Putz, espero não ter cão-fundindo mais que ajudado.

    Raquel

    • danilo
      01/02/2010 (12:43 pm)
      Responder

      Falou a Raquel. Andava de férias e nós sentimos a falta dela. Mas é por aí mesmo, menina.

  • Maria Paula
    01/02/2010 (11:27 am)
    Responder

    Eu acho que, independentemente da questão jurídica, é preciso considerar também o que se quer fazer. Se a ideia é ser dono do próprio nariz, uma empresa é melhor, pois você administra tudo sozinho: clientes, diretrizes, guias de estilo, colaboradores etc. Agora, se a intenção for a produção pura e simples, sem contato com o cliente ou preocupação em bolar regras, acho melhor o vínculo com uma agência. Porém, nesse caso, corre-se o risco de ganhar menos e você terá de “obedecer ordens” de vez em quando.

    • danilo
      01/02/2010 (11:38 am)
      Responder

      Juridicamente, Maria Paula, mesmo que você trabalhe exclusivamente para agências, tem que dar RPA ou NF. Trabalhar “por fora”, “informalmente” e por aí em fora, sem nota nem RPA, para qualquer cliente localizado no Brasil, seja agência ou não, está trabalhando ilegalmente e sujeita a mil problemas com o fisco. Sei que muitas agências não pedem documentação alguma, o que muitos tradutores consdideram uma grande maravilha. Por outro lado, essas agências costumam ser as que menos pagam.

  • Adriana de Albuquerque Maranhão
    01/02/2010 (10:06 am)
    Responder

    Oi, Danilo,
    Obrigada mesmo, vou ler mais à respeito e sim, vou ver o contador, um bom profissional como você sugere!
    Uma ótima semana!
    Adriana

    • danilo
      01/02/2010 (11:40 am)
      Responder

      Ótimo. Como diria o Antonio Houaiss, cada símio em seu ramo


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