Desaforo! (2)

Onze da noite, pleno inverno, eu já com um pé entre os lençóis, toca o telefone. Atendi. Era uma agência americana. Podia ser coisa de urgência, mas era uma bobagem, que podia perfeitamente ser tratada pelo correio eletrônico, ou ficar para o dia seguinte. Respondi, mas lembrei o carinha que aqui era já muito tarde. Ele retrucou que aquela era a hora do dia que ele reservava para essas coisas. Só faltou completar “e você que se dane”.

No dia seguinte, a mesma coisa. Respondi que minhas máquinas estavam desligadas (o que era verdade) e que só ia responder, via e-mail, no dia seguinte de manhã, desligando o telefone quase que em seguida.

Mas parece que o rapaz não entendeu nenhuma das duas mensagens, porque, três ou quatro dias depois, mesma hora, toca o telefone, de novo, à mesma hora. A Vera e eu ainda no escritório, mas já tínhamos encerrado o dia e estávamos tomando vinho e lendo, num cantinho aconchegante que chamávamos “a sala de estar”. Levantei, fui ver quem era. O identificador de chamada mostrava que era, de novo, o chato. Voltei para minha poltrona e deixei tocar. No outro dia, tinha uma mensagem dele na minha caixa postal, fazendo uma pergunta que, realmente poderia esperar.

Dessa vez, funcionou: nunca mais ligou.

Desaforo!

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


7 Comentarios em "Desaforo! (2)"

  • Danilo Nogueira
    13/03/2009 (2:46 pm)
    Responder

    Leiam, crianças, as opiniões da Raquel. Ela sabe das coisas.

    Tradutor não tem razão alguma para ficar de plantão dia e noite. Somos profissionais, não escravos. E não adianta reclamar da vida, o que adianta é agir.

  • Anonymous
    13/03/2009 (2:28 pm)
    Responder

    Yes, D., o tempo voa! E nesses 21 anos acho que minha conquista mais árdua foi comandar meu próprio tempo e produtividade e não me deixar comandar pelos clientes. Hoje em dia, nem e-mail respondo fora do horário de expediente. A criatura olha e já pensa “ah, estava na frente do computador às 23.45h, hein, então pode muito bem fazer isso para mim”. E como eu disse antes, quanto mais impus meu ritmo, mais produzo e mais ganho. R.

  • Danilo Nogueira
    13/03/2009 (11:39 am)
    Responder

    Nossa, Raquel, como o tempo passa, não é? Vinte e um anos!

    A lembrança da “prova da retirada” do TPIC é excelente: a turma pede urgência, pelo amor de Deus para amanhã cedo, você vara a noite fazendo o serviço e o cara passa para pegar na semana seguinte.

    Pedir urgência é doença. Precisa tomar cuidado, porque pega.

  • Anonymous
    13/03/2009 (11:11 am)
    Responder

    Ooops, uma urgência verdadeira a cada 7 anos!

    Raquel

  • Anonymous
    13/03/2009 (10:55 am)
    Responder

    Oi Danilo, em 21 anos como tradutora pública posso dizer exatamente quantos casos realmente urgentes atendi:

    1) Filho em intercâmbio precisava de tradução na mesma tarde para seguro liberar passagem aérea para o guri vir ver o pai na UTI. Pai faleceu dias depois.
    2) Cliente manda mudança dos EUA para Paranaguá em um conteiner. Burocracia infinita para liberar e um dia vem a notícia de que a mudança seria embarcada DE VOLTA se tal papel não estivesse no porto até 15h. Mudança salva.
    3) Jovens atendendo primeiro grande cliente de informática precisavam comprovar que falha no sistema (que poderia causar prejuízo de milhões em minutos) não era responsabilidade deles. Ação de indenização evitada.

    Uma urgência verdadeira a cada 5 anos. E o TPIC, como v. diz, sabe direitinho que a urgência era conversa mole porque a tradução é entregue impressa, alguém tem que ir buscar. E depois de todo o drama inicial, levam dias, semanas para ir buscar…

    Desde que tirei a palavra “urgência” do meu dicionário produzo mais e ganho mais, sem pressão. Para confirmar a regra, tive uma recaída ontem (por isso estou comentando aqui) e me arrependi rapidinho. 🙂

    Raquel

  • Danilo Nogueira
    12/03/2009 (4:46 pm)
    Responder

    Pois é, Thaís, concordo plenamente. Por isso, uma das habilidades que o profissioinal tem de desenvolver é a de distinguir entre necessidades reais e a mera vontade de chupar o sangue do tradutor por canudinho.

    É meio como a situação de mãe: você precisa aprender a entender quando aquele berreiro significa que é necessário largar tudo para acudir a criança e quando é um mero acesso de birra. Cliente, às vezes, é pior que criança.

    E, voltando ao seu comentário, é por concordar que “a folga do cliente é proporcional ao espaço que damos a ele”, que insisto na necessidade de aprender a dizer “não”. Um “não” gostoso e redondo, com sabor de brigadeiro, mas, ainda assim, um “não”, firme e terminante.

  • Anonymous
    12/03/2009 (4:10 pm)
    Responder

    Danilo, seu relato me fez pensar que, muitas vezes, a folga do cliente é proporcional ao espaço que damos a ele. E que a palavra ‘urgente’ é tão relativa! Em muitos casos, as 50 de laudas que o cliente precisa de hoje para amanhã ao meio dia podem, sem problema nenhum, ficar para depois de amanhã. Ou para a semana que vem. Cabe a nós impor os limites e saber negociar.
    Thaís


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