E essa crise, heim?

Pois é, está todo mundo preocupado, não? Já passei por muitas crises, mas esta aqui parece que vai ser mais braba do que as outras. Como trabalho basicamente com finanças, estou mais bem informado que a média — e estou de cabelo em pé.

Até um agnóstico empedernido como eu sabe que o futuro a Deus pertence, mas tem uma que outra coisa que a gente pode ir esperando.

O volume de serviço deve cair verticalmente. Quem tinha muito serviço, vai ter um fluxo médio, quem tinha médio vai ter pouco. Quem já tinha pouco pode ficar sem nada.

Caindo o volume, cai o preço. Vai ficar cada vez mais difícil cobrar “Tabela do SINTRA”. Até aí, tudo bem. Mas a turma que trabalha para aquelas editoras e agências que pagam entre uma miséria e quase nada por palavra e ainda atrasam o pagamento vai ter que tomar uma atitude, porque chega a um ponto em que não vale a pena mais trabalhar — se é que ainda vale trabalhar para essa gente. Mas tem um limite, sim, e conheço vários colegas que estão nesse limite, embora nem todos tenham percebido.

Quer dizer, trabalhar menos a preço mais baixo. O bicho vai comer.

Pior são os aproveitadores. A crise mal estava se iniciando e já tinha agência chorando lágrimas de crocodilo, pedindo descontos e favores absolutamente sem necessidade, jogando com o nosso medo. Vai ter muito disso, sempre tem.

As piores são as agências que vivem de subcontratar serviço no exterior. Sabe como funciona, não? A Empresa X, lá fora, precisa de uma tradução para o português. Encontram três agências que traduzem “from Afrikaans to Zulu” e leiloam a tradução entre elas. Leiloam, porque não entendem uma palavra de português e, portanto, como critério de escolha, só têm o preço. Ganha a Alpha International, que funciona no fundo do quintal de um aventureiro qualquer, mas tem um site bonito. A Alpha Internacional então leiloa o serviço entre várias agências brasileiras, porque, na verdade, nunca tiveram um tradutor de português nos seus cadastros. Como não sabem nada de português, o critério único é o preço. Ganha a Agência Beta Brasil, que, então distribui o trabalho entre seus tradutores. Quer dizer, ao pegar o serviço da Beta Brasil, você é vítima de dois leilões reversos.

O assunto é fascinante, mas tenho que ficar por aqui. Volto a ele no próximo artigo, que deve aparecer no sábado.

Redigido por Danilo, com as habituais sugestões, revisões, palpitações e puxões de orelhas da Kelli.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


3 Comentarios em "E essa crise, heim?"

  • Rodrigo Villasboas
    23/01/2009 (1:51 pm)
    Responder

    Danilo: Como dizem os chineses as crises são quando aparecem as maiores oportunidades. Se você observar as publicações estrangeira no setor verá que a maioria das instituições financeiras estão procurando novas soluções de software que permitam maior controle sobre as operações. As empresas já estão se mexendo e precisaram traduzi-los para poder oferecer a outros países. Essa, entre outras, é uma dessas oportunidades. Portanto, apesar da redução de trabalho inevitável agora, vale a pena um investimento no sentido de procurar saber como funciona. Trabalho já há muito com esse setor e sei o quanto ele pode ser interessante e, o melhor, eles são fiéis aos bons profissionais e não pagam tão mal assim.

  • Danilo Nogueira
    23/01/2009 (9:10 am)
    Responder

    Juliana, desculpe, mas só no fim de semana. Hoje, é dia de ir ao evento de férias da SBS.

  • JuMar
    22/01/2009 (1:36 pm)
    Responder

    Olá, Danilo. Desculpe a insistência, mas realmente gostaria de saber sua opinião sobre o Curso ministrado na Mackenzie – vide link: http://www.mackenzie.br/153.html
    Obrigada,
    Juliana.


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