Eu e o Venuti

Escreve o colega (e eu resumi barbaramente):

…entretanto, sendo também admirador e estudioso da obra de Lawrence Venuti, fico bastante chateado, diria mesmo triste, quando leio você utilizando expressões como “isso o livrinho do Venuti não ensina”.

Realmente esse autor não oferece esse tipo de orientação, mas simplesmente não é esse o objetivo do trabalho dele.

Concordo com a falta de formação para tradutores voltada realmente para a atuação profissional mas também dou muita importância à formação acadêmica em tradução, que acredito proporcionar um valioso suporte no processo tradutório, e também à pesquisa na área. Não gosto de ver a formação e a atuação profissional se apresentando como processos opostos e quase antagônicos.

A mensagem veio assinada, além de ser correta, educada e identificável. Mas o autor parece preferir o anonimato, dado um trechinho que omiti. Por isso, cito aqui, com alguns cortes, sem lhe mencionar o nome. Minha resposta, nos parágrafos que seguem.

Felizmente, não vejo diferença alguma entre sua posição e a minha. Eu digo que isto e aquilo o Venuti não ensina e você concorda. Eu jamais disse que formação acadêmica carece de importância, mesmo porque, por carecer dela, sei que valor tem, talvez mais do que os que fizeram um bom curso superior. E veja que aqui, na Aulavox e onde eu esteja, sempre digo que há vários caminhos que levam à tradução e que o melhor deles, hoje, é uma boa faculdade.

Também sei que o objetivo do livro dele não é ensinar a lidar com o mercado nem nada disso. Nem acho que ele devesse abordar esse assunto, de que provavelmente ele tem pouco ou nenhum conhecimento.

Você afirma que reconhece a importância dos assuntos de que trato aqui no blog, em alguns pontos de sua mensagem que omiti e diz que concorda que falta formação para tradutores voltada realmente para a atuação profissional, que é uma das minhas bandeiras.

Você não gosta de ver formação e a atuação profissional se apresentando como processos opostos e quase antagônicos e este é mais um ponto onde concordamos: formação acadêmica e, digamos, capacitação profissional, são complementares, duas faces do sucesso profissional.

A dificuldade está em que você aparentemente imagina que ao dizer que algo não se encontra no livro do Venuti eu estou criticando o Venuti (ou o Mounin, que era a moda há alguns anos, ou o Catford, que fio moda antes ainda ou quem quer que seja). Não, não é isso. Estou usando “Venuti” aqui como um símbolo do estudo teórico da tradução e, quando digo que “não está no livrinho do Venuti” estou ironizando não o Venuti, mas aquelas pessoas que julgam o estudo teórico da tradução suficiente e que tudo o mais cada um que aprenda como melhor puder, porque isso não é obrigação de faculdade ensinar.

Por exemplo, ainda continuo achando um absurdo num curso de graduação não se ensinar a usar ferramentas informáticas de auxílio à tradução, porque a primeira coisa que se pergunta a um candidato a tradutor, em pelo menos 50% dos casos, é se sabe usar memória de tradução. Para mim, essas ferramentas fazem tanto parte da vida do tradutor como o estetoscópio faz parte da vida do médico. E o médico aprende a auscultar o paciente na faculdade, não “na prática”.

Quer dizer, nada contra o Venuti, mas é preciso ir além dele. Há muita coisa importante, indispensável mesmo, que o livrinho dele não diz.

Termino agradecendo a mensagem. É sempre bom o diálogo com os leitores. A gente escreve, escreve, esceve e são os comentários que nos fazem crer que alguém leu, que não escrevemos em vão, que não falamos no deserto.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


2 Comentarios em "Eu e o Venuti"

  • Danilo Nogueira
    24/05/2009 (2:06 pm)
    Responder

    Teoria e prática deveriam ser dois lados da mesma moeda. É lamentável quando não o são. Uma deveria complementar a outra.

    Espero que, pouco a pouco, se juntem as duas. Já melhorou muito, muito mesmo. Há anos, eu ouvi de um professor que ele tratada de traduções sérias, quer dizer, tradução literária. Além de ignorante, era mal educado, porque sabia que eu não fazia literária.

  • A.F
    24/05/2009 (1:32 pm)
    Responder

    Eu abandonei o mestrado em estudos da traducao no final do primeiro ano porque os estudos teoricos e a pratica pareciam (e ainda acho que em muitas universidades sao) dois mundos separados. Li bastante o Venuti, o Antoine Berman e outros. Desisti porque eu queria me aprofundar na pratica (que eu ja conhecia ha uns bons anos) e a teoria infelizmente nao me ajudou em nada. As teorias eram apenas para ensinar em universidades ou fazer pesquisas, e eu nao queria nem um nem outro. Hoje trabalho como tradutora em uma empresa fora do Brasil e do curso que larguei, o unico conhecimento que aplico no meu trabalho eh o uso das ferramentas de traducao, que aprendi com colegas do curso. Dos ensinamentos dos teoricos nao consigo perceber nenhuma contribuicao no meu trabalho.


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