Não tenho Tempo para Aventureiros

Há algum tempo, alguém postou uma pergunta muito boba em uma lista de discussão. Um colega nosso, muito gozador, respondeu assim “de acordo com a página tal do Collins Gem, a tradução é tal”. A consulente ou não entendeu ou se fez de desentendida: agradeceu e sumiu do mapa. Mas, tem dó, postar uma pergunta numa lista sem se dar ao trabalho da abrir um dicionário antes, é abuso. Além disso, queima o filme. As listas são uma vitrina e eu posso traçar cada um dos clientes que tenho hoje à minha ativíssima participação na trad-prt, num outro momento da lista, momento que considero mais feliz do que o atual.

Aos poucos, foram me oferecendo serviços e oportunidades que foram me elevando do dez reau por baciada para patamares de remuneração mais elevados. E ninguém vai oferecer serviço para que posta na lista perguntas que poderiam ser respondidas por uma consulta a qualquer dicionário. Quer dizer, cada um forma sua própria reputação.

Postar perguntas é bom e, creiam-me, se a gente aprende muito sobre um profissional lendo as respostas que dá aos colegas, muito mais se aprende lendo as perguntas que posta. Uma pergunta bem formulada, sobre um problema complexo, conquista para o consulente a reputação de profissional interessado em fazer um bom serviço. Perguntas cretinas, por outro, conquistam para o consulente a reputação de…cretino.

Não vai faltar quem responda às perguntas bobas, claro. Alguns, por um senso de caridade que difere do meu ou às, vezes, por motivos que eu consideraria menos nobres.

Há algum tempo, soltei os cachorros em alguém que tinha postado uma série de perguntas cuja resposta se encontra em qualquer dicionário que se preze e até em alguns que não se prezam. Uma colega me repreendeu “Ah, seu Danilo, o senhor nunca foi principiante, ou já se esqueceu daquele tempo?” O “senhor” aí, não era demonstração de respeito – ninguém me chama de “senhor”, exceto minhas sobrinhas – mas sim um daqueles sarcasminhos baratos tão correntios na Internet.

O fato é que censurei a consulente exatamente por me lembrar de quando era iniciante. Não havia Internet, naquele tempo, nem em sonho, mas eu já fazia perguntas – mas só quanto tivesse esgotado todos os recursos próprios. Aliás, essa é uma das características que distinguem, de um lado, o principiante, que merece todo o nosso respeito, porque todos nós um dia fomos principiantes e porque o principiante bisonho de hoje é o bom colega de amanhã, e, de outro o aventureiro, porque o aventureiro de hoje é o picareta de amanhã.

O principiante tem um compromisso com a profissão e dá um duro danado para fazer um bom serviço e se desenvolver, acumulando recursos e fazendo o melhor uso possível deles. O aventureiro, simplesmente quer entregar o serviço, de um modo ou de outro, e “pegar o dindim”. À primeira palavra para a qual não lembrar imediatamente de uma tradução, posta dúvida na lista: alguém que lhe resolva os problemas, porque ele não está muito interessado em resolver nada. Não passa de um chupim, de um sanguessuga.

Desculpem, mas não tenho tempo para aventureiros.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


1 Comentario em "Não tenho Tempo para Aventureiros"

  • NC
    17/07/2009 (4:18 am)
    Responder

    E como tem desses tipos em listas e sites mesmo.


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