Nós e a Tradução Automática

Hoje, abro espaço para dois amigos da casa. Primeiro, Renato Motta, que, há pouco tempo, era exclusivamente professor de inglês com vontade de ser tradutor literário. O original está aqui.
Para ser tradutor você precisa saber muito bem a língua de origem (inglês, por exemplo), saber melhor ainda a língua de destino (português), ser curioso, ler muito, gostar de aprender coisas novas, ler muito, adquirir cultura, ler muito, viajar sempre que possível, ler muito, estudar até o olho arder e ainda ficar com vontade de ler mais, aprender outras coisas e ir além.

Traduzir não é copiar em outro idioma. É criar, recriar, adaptar, transformar, permutar, dissociar, ressoar, reescrever, revisar e ter pique para começar tudo de novo porque o texto não ficou legal.

É ter um senso crítico apuradíssimo misturado com uma humildade infinita, por mais que tais conceitos pareçam contraditórios (e talvez sejam).

É lapidar a frase de um romance, a cláusula de um contrato ou a instrução de um manual até ficar perfeita, inequívoca, bela, claríssima e dizer: “Queria ver o tradutor do Google fazer isso”.
É saber que as palavras têm sons, têm cores, têm aromas, têm texturas, têm sabores. É aprender a misturá-las em uma receita exótica que não poderá ser duplicada. É ter a certeza de que se centenas de bons profissionais traduzirem o mesmo texto, nenhum deles será igual ao seu, e curtir a beleza dessa insegurança.

Bonito, não? Mais que bonito, de uma grande agudeza. Preste atenção em quanto há aqui, em menos de quarenta palavras: “É lapidar a frase de um romance, a cláusula de um contrato ou a instrução de um manual até ficar perfeita, inequívoca, bela, claríssima e dizer: “Queria ver o tradutor do Google fazer isso”. Bom ouvir, do Renato, que uma cláusula de contrato e a instrução de um manual merecem a mesma atenção que a frase de um romance, verdade que não penetrou até hoje em muitas cabeças de gente que se acha entendedora do que seja tradução.

Acho que o Renato jamais ouviu falar do Terence Lewis — nem o Terence do Renato, tampouco. O Terence é um tradutor inglês que, um dia, resolveu criar um software de tradução do holandês para o inglês. Ele vai aparecer aqui de novo, várias vezes, porque, gentilmente, está me ajudando a entender melhor o mundo da tradução automatizada. Aliás, viveu no Brasil e só me escreve em português corretíssimo. O Terence, outro dia, passou um tuite em que ele dizia (não era para mim, portanto, veio em inglês e a tradução aqui é minha), naquele estilo conciso e incisivo que o meio exige.

Meu software vai só até certo ponto, e talvez nem seja muito longe. Mas o tradutor que quiser sobreviver vai ter de ir muito além.

Não pude analisar o Trasy, o software criado pelo Terence, porque não sei holandês. Mas, pelo que ele me diz, deve estar quilômetros adiante to Google. Se não estivesse, não teria sido adotado pela Siemens.

Mesmo assim, nas palavras do próprio criador, vai só até certo ponto, e talvez não seja muito longe. Cabe a nós, se quisermos sobreviver, seguir o conselho do Terence e ir bem mais além do que o Google e, inclusive, bem mais longe que qualquer software de tradução automática de alta qualidade, que há muitos.

Bom, e como é que se consegue ir mais além do que alcança o software? Fácil, é só seguir o conselho do Renato.

Felizmente, este artigo conta com a colaboração da Kelli, que anda meio que sumida do blogue.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


4 Comentarios em "Nós e a Tradução Automática"

  • palloma
    20/07/2010 (3:19 pm)
    Responder

    Olha esse texto do Renato mecheu realmente comigo, afinal acho que todos que desempenham uma profissão deveriam exerce-la assim, e descreve-la assim também, muito legal essa sensibilidade dele de mostrar como um tradutor deve se sentir e agir… parabens ameiii o post. by

  • Ana Rodrigues
    24/07/2009 (2:54 pm)
    Responder

    Oi Danilo! Muito bom mesmo o texto do Renato! Tomei a liberdade de reproduzi-lo no meu blog de tradução, o "Traduzir-se" – com os devidos créditos e links para você e para o Renato, é lógico. Espero que não se importe. Um abraço. Ana

  • Anonymous
    24/07/2009 (7:45 am)
    Responder

    O post do Renato é mesmo poético, emblemático da nossa profissão – gostei! Se eu ganhasse na loteria, adotaria a postura do Renato e começaria a traduzir belas obras da literatura alemã para o português. Enquanto isso não acontece, luto contra o meu próprio perfeccionismo e sigo o lema "o ótimo é inimigo do bom", afinal, dia 1º tenho que pagar o aluguer. Um bom fim-de-semana a todos!

    M. Zattar

  • Petê Rissatti
    23/07/2009 (6:17 pm)
    Responder

    Esse tipo de gente (einschließlich du) e esse tipo de texto que me faz querer ir adiante e postergar a compra do carrinho de cachorro quente.

    Grande abraço!


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