Notinha rápida sobre amadorismo

Não há nada de errado em ser tradutor amador, como nada há de errado em ser músico ou pintor amador. Churchill era pedreiro amador e passou um tempão levantando um muro. Há excelentes músicos e pintores amadores, como há excelentes tradutores amadores. Muito do que há de tradução de poesia, na verdade, é feito por amadores. Até D. Pedro II cometia suas traduçõezinhas. Nada contra. Mas ninguém conrataria Churchill para construir uma casa o D. Pedro II para traduzir um livro.

Mas, de qualquer forma, eu sou tradutor profissional, não amador. Há diferenças.

O amador traduz o que quer.
O profissional traduz o que alguém precisa que ele traduza.

O amador tem outra ocupação remunerada e geralmente nem pensa em cobrar por suas traduções.
O profissional cobra por suas traduções e geralmente nem pensa em ter outra ocupação remunerada.

O amador traduz depois do serviço.
O serviço do profissional é traduzir.

Tenho orgulho de ser profissional, entre outras coisas porque não é qualquer um que consegue. Entretanto, nada tenho contra os amadores – salvo quando, numa apoteose de arrogância, me chamam “mercenário da tradução”. Uma vez, ouvi isso de um professor universitário, que me tratou com desprezo, porque eu insistia em cobrar pelas minhas traduções. Eu sabia quem era, mas, me fazendo de bobo, perguntei do que ele vivia. Peito inflado, respondeu, “sou professor titular de tal e tal coisa na universidade de qual e qual”. E eu, fazendo uma cara de perfeito idiota (fácil, no meu caso, a natureza ajuda), disse “ah, então, o senhor é mercenário do ensino!” Quase apanho e, evidentemente, fiz um inimigo. Mas há certo tipo de pessoa que é melhor ter como inimigo.

Espero postar mais alguma coisa hoje.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


3 Comentarios em "Notinha rápida sobre amadorismo"

  • Giovana
    07/06/2014 (8:06 pm)
    Responder

    Eu realmente concordo, pois vc ralou pra chegar até aqui; mas há milhões de pessoas que realmente não pode pagar por traduções; a nossa intenção é ajudar quem precisa mas não pode! Espero que entenda de coração!

  • Fernanda Guimarães
    28/03/2007 (5:37 pm)
    Responder

    Bom, a diferença entre ser amador e profissional está no compromisso que você assume com a tarefa em questão. Ser tradutor profissional significa que você empenhou seu tempo e dinheiro para isso e assim tem maior compromisso para com as traduções, contudo ser amador não significa que não possa ser um bom tradutor, mas o compromisso é menor, se faz só por prazer e não deve ser cobrado visto que você pode traduzir o que quer e quando quer.

  • Anonymous
    23/03/2007 (6:33 pm)
    Responder

    Te dou toda razão de ter que cobrar pelas sua traduções, mais do que justo. Porque afinal de contas se gasta um tempo para fazê-las e outra como você mesmo disse, se fosse qualqueroutro tipo de trabalho também seria cobrado e por que um tradutor não pode fazer isto?
    As pessoas acham que traduzir não exige esforço, pode ser que não braçal, mas do intecto exige mais do que se fosse pegar para fazer o serviço braçal.Parabéns pela sua atitude.

    Luciana de Oliveira Leite


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