O Caso do Alaor

Então, deixa contar para você a história do Alaor, como prometi ontem, antes que me esqueça.

Precisa ter um pouco de contexto, caso contrário não faz muito sentido. Antigamente, só havia linha discada, de uma lentidão exasperadora. A ligação era “ilegal-consentida”, meio como o jogo do bicho ainda é hoje. As Telefônicas diziam que não faziam transmissão de dados e era proibido ligar na linha telefônica qualquer aparelho que não fosse um telefone. Modem era algo que a gente comprava contrabandeado.

Baixar as mensagens custava muito caro e demorava um tempão, porque a conexão caia a toda hora e, ao recomeçar, o provedor mandava desde a primeira de novo. Por isso, não tinha nada desse papo furado que hoje é a norma: escrevia-se pouco, por respeito aos colegas. Quem mais sofria eram os cariocas, com a TELERJ, que martirizava a população com requintes de um sadismo indizível.

A trad-prt tinha, nos dias mais movimentados, dez ou doze mensagens e raríssimos colegas faziam parte de mais de uma lista, porque era caro demais. Linha discada custava caro e, pior ainda, monopolizava o telefone. E ter duas linhas em casa era quase impensável.

Então, um dia, veio o Alaor. Era funcionário de um órgão público e tinha acesso livre à rede, motivo de inveja para todos nós. Não sei o que fazia lá, porque era, confessadamente, ainda pretendente a tradutor.

Um dia, teve de fazer um trabalho para a faculdade. Não sei se foi ele quem arrumou o tema ou se lhe coube por sorteio (ou “azerteio”, sei lá), mas um dia teve de criar um glossário português-inglês de termos sobre esportes. Lá sei eu como, ele achou que 2.500 termos estava de bom tamanho. Então, criou uma lista de 2.500 termos em português e criou 50 mensagens, cada uma com 50 termos, mais um texto padronizado, pedindo a ajuda de todos para fazer seu trabalho acadêmico. Por algum motivo que me escapa, a cada mensagem anexou um arquivo Word, repetindo as 50 palavras, deixando as mensagens ainda maiores. Adicionou uma mensagem final, gabando-se de seu feito.

Teve gente que levou mais de três horas para baixar toda aquela porcariada. O custo foi bárbaro, porque a tarifa era escorchante.

A reação da turma foi terrível. Só não chamaram o cara de pdf imagem protegido por senha porque naquela época isso não existia. Do resto, escapou por pouco.

Sujeitinho descarado, queria que a gente fizesse o trabalho para ele. Vai pesquisar, vagabundo! E ainda fazendo trabalho escolar no horário de trabalho, à custa do contribuinte. Quem vai pagar a minha conta telefônica? Você, seu inútil?

A grita foi tanta, que o rapaz saiu da lista e sumiu do mapa completamente. Foi o primeiro grande abuso que vi nas listas. Vieram outros, que fizeram este parecer café pequeno.

Por hoje é só. Amanhã deve ter mais. Obrigado pela visita e volte sempre.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


3 Comentarios em "O Caso do Alaor"

  • Marise
    17/10/2009 (11:57 am)
    Responder

    Danilo, seus "causos" são impagáveis!

  • Lorena S. P. Leandro
    15/10/2009 (1:11 am)
    Responder

    Às vezes também é uma grande decepção se deparar com intermináveis discussões totalmente off-topic nas listas. Principalmente para quem está começando, pois quando entramos em uma lista onde sabemos que encontraremos veteranos, pensamos em experiência e respeito profissional. Não em ofensas gratuitas (existe ofensa paga?), diz-que-me-diz e comentários desnecessários. É um péssimo exemplo e desmerece a categoria.

  • Fabio
    14/10/2009 (2:41 pm)
    Responder

    Danilo, pelo jeito o Alaor se reproduziu e está na geração 2.0. Horas atrás, no KudoZ, uma sujeita postou frases inteiras de um documento e pediu descaradamente uma tradução alemão-português (gratuita, é claro). E o pior é que teve tradutor que respondeu. Mais de um, aliás. Quando alguém reclamou, ela disse que tinha boas intenções e só queria agradar um cliente dela (!) com uma tradução para uma língua que ela não conhece, o português. E cinicamente acrescentou que para quem se sentisse explorado ela daria um "voucher" com créditos para uma tradução nos pares de idiomas com os quais ela trabalha.
    Pode uma coisa dessa?


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