O Congresso da ABRATES – 1

Acho que dá pra escrever mais de um mês sobre o congresso da ABRATES. Já foi, é verdade, mas foi tão bom que compensa continuar falando dele. No meu caso, começar a escrever.

No primeiro dia, assisti a oficina sobre linguística de corpus. Trabalhei, por um curto período, com o tema na faculdade, e, já tendo uma ideia do que é, queria ver o uso que estão fazendo dela. E vi que o pessoal da UFRGS está fazendo um trabalho mara (precisei colocar algo assim para a Dafne perceber que sou eu escrevendo, e não o Danilo).

Corpus, para quem não sabe, é o resultado da coleta de texto, oral ou escrito, de uma língua. Pode ser de um registro específico, como um corpus de jornal, ou pode ser misturado, conforme o objetivo que se tem. Sendo resultado de realizações espontâneas, descreve os fenômenos linguísticos, em vez de prescrever o certo e o errado.

A partir do corpus, é possível analisar os contextos em que uma palavra ou expressão ocorre, ou em qual segmento social ou etário, por exemplo, ela é mais comum com determinado sentido. Dou um doce para quem resolver fazer um “Collocations” do português baseado em um corpus bom – é meu sonho de consumo desde que comecei a traduzir.

Além de ser essa fonte de pesquisa excelente de uso e contexto para os tradutores, é possível preparar corpora alinhados, como o COMPARA. E, a partir desse alinhamento, é moleza (viu, Daf?) preparar uma memória de tradução. Conforme as fontes que você escolher, pode ser uma memória bem útil.

Na UFRGS, estão preparando glossários a partir de corpora. Direito ambiental, odontologia e pediatria são os temas de que me lembro. Estão, também, comparando corpora em inglês nativo e escrito (seja texto original ou versão) por brasileiros, o que eu achei fantástico. Uma comparação quantitativa rápida de ‘because’ e ‘provoke’, por exemplo, pode surpreender muita gente.

O ponto negativo, negativíssimo, para mim, foi quando, explicando o glossário, foi dito que ele não inclui definições porque tradutores iniciantes, alvo do projeto, precisam é da tradução, não da definição. Imaginei o Danilo caindo da cadeira e rolando de dor ao ouvir uma coisa dessas.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


12 Comentarios em "O Congresso da ABRATES - 1"

  • Gio
    19/04/2010 (9:07 pm)
    Responder

    Obrigada pela resenha e fico aguardando mais. Tive o prazer de estar presente no primeiro congresso e fiz um relato no The Chronicle para a ATA, porém dessa vez não deu mesmo. Vai ter que ficar pro próximo… – Gio

    • Kelli
      19/04/2010 (11:52 pm)
      Responder

      Gio, que bom ver você por aqui! O Danilo sempre fala muito bem de você. 🙂

      Um beijo e volte sempre!

  • Carol_Fernandes
    05/04/2010 (10:13 pm)
    Responder

    Kelli,

    Imaginei que ele não ia querer falar muito neste assunto. Mas não podia passar em branco. Fiquei feliz por ele mesmo ter respondido ao meu pedido.

    Abraços,
    Carol

  • Carol_Fernandes
    04/04/2010 (9:36 pm)
    Responder

    Kelli,

    Uma sugestão: não deixe de comentar sobre o prêmio que o Danilo recebeu. Olha não é brincadeira 40 anos de prestação de serviço de tradução. Só por este site/blog já seria merecido. Imagina pelo que não sabemos?

    Abraços, Carol

    • Kelli
      04/04/2010 (10:04 pm)
      Responder

      Carol,

      Se bem conheço o Danilo, ele não vai querer que eu faça muito auê com isso. Estou toda orgulhosa, claro, acho que é merecidíssimo, e só posso dizer, além disso, que queria ter estado ao lado dele na hora da entrega.

      Ah, e sim, tem muita coisa que ele não conta aqui. 😀

  • Cybele Alle
    02/04/2010 (1:54 pm)
    Responder

    Oi Kelli!

    Fiquei super feliz de ver sua menção aos trabalhos com Linguística de Corpus desenvolvidos na UFRGS. Aproveito a oportunidade, e a observação da colega Aline, e recomento também uma visita à biblioteca virtual no site do TextQuim para aqueles que se interessarem pelo assunto. Lá é possível encontrar artigos e apresentações de estudos desenvolvidos pelos participantes do projeto em Química, Física, Cardiologia etc.. Eu, particularmente, tenho desenvolvido, sob a orientação da Profa. Maria José Finatto, estudos contrastivos de reconhecimento de padrões de convencionalidade na Pediatria em artigos científicos produtos de tradução e em artigos escritos originalmente em inglês com resultados bastante interessantes. Para os interessados na área, vale conferir.
    Bjos para ti e para o Danilo!

  • Aline Evers
    01/04/2010 (3:42 pm)
    Responder

    Oi, Kelli!

    É muito bom ver vocês comentando sobre o congresso, ainda mais sobre a nossa oficina e sobre os trabalhos desenvolvidos na UFRGS. Vou aproveitar o comentário para reparar um pequeno deslize que provavelmente cometi devido ao nervosismo de principiante, explicando o Dicionário de Química e o Catálogo de Construções recorrentes em Pediatria. Não quis dizer que definições não são importantes para o trabalho do tradutor, tampouco é isso que pensamos lá na pesquisa. Se fosse assim, não produziríamos dicionários nem glossários, apenas listas de palavras e seus “equivalentes” na língua-alvo. O que quis mostrar é que, no caso do Catálogo, há uma preferência em mostrar os contextos em que as construções recorrentes ocorrem, na língua-fonte e na língua-alvo, a fim de mostrar ao tradutor aprendiz como essas construções são utilizadas. No caso dessas construções, muitas não são TERMOS propriamente ditos, por isso, difíceis de definir. No Catálogo, fazemos notas de uso e não definições, por causa da natureza das unidades selecionadas. Já no Dicionário, há definições para praticamente todos os termos, sendo que algumas definições ainda não estão prontas porque são feitas conforme a disponibilidade dos bolsistas.
    =D

    Em breve entraremos em contato com os participantes da oficina para encaminhar o material que utilizamos na apresentação. Se quiseres relembrar algumas coisas, boa parte do que falamos encontra-se no site do projeto TEXTQUIM.

    http://www6.ufrgs.br/textquim/index.php

    Abraço!

    • Kelli
      01/04/2010 (4:41 pm)
      Responder

      Oi, Aline!

      Muito bom te ver por aqui, e melhor ainda agora que o mal entendido foi desfeito. Mas, mesmo que não tivesse sido, o saldo já tinha sido muito positivo!

  • Roseli
    01/04/2010 (1:44 pm)
    Responder

    Kelli,

    Não sei se você conhece a Stella E. O. Tagnin, da USP, que trabalha há muito tempo com a Linguística de Corpus e é uma referência na área.
    O grupo dela trabalha com vários assuntos, tem até gente que pesquisa termos do futebol!
    Aqui nesse link uma pequena amostrinha do trabalho dela. Vale a pena buscar mais, para quem se interessar.
    http://www.fflch.usp.br/dlm/comet/Novo/Stella_Abrapui%202007_artigo.pdf
    Um beijo,
    R.

  • Peterso Rissatti
    01/04/2010 (1:02 pm)
    Responder

    Invejinha de quem foi pro congresso. E muito bom que vocês trarão informações para quem não estava lá, parabéns!

  • Val Ivonica
    01/04/2010 (1:00 pm)
    Responder

    A UFRGS também está trabalhando forte na área química, Kelli, com o TextQuim. Também gostei muito dessa palestra sobre corpus, foi a primeira vez que vi o assunto ser abordado de maneira prática (do ponto de vista do tradutor).

    Preciso colocar em ordem minhas anotações sobre o congresso e escrever no blog. Mas só a partir da semana que vem. O feriado vai ser de descanso, longe do computador! 🙂

    • Kelli
      01/04/2010 (1:03 pm)
      Responder

      Tem razão. A química até estava nas minhas anotações, mas passei batido. Quero ver o material no site da ABRATES logo, para lembrar de mais coisa.


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