Os subterrâneos da tradução

A grande empresa lá no exterior precisa de serviços de tradução para o Brasil. Provavelmente nem sabem que língua se fala aqui. Abre as Páginas Amarelas, pega uma agência que diz “todas as línguas”. Faz contato e pergunta aos carinhas se eles fazem tradução para o Brasil. Fazem, claro. Até para Marte, se for o caso.

A agência pode ter, como muitas têm, seus tradutores brasileiros de confiança. Mas pode também não ter, ou porque nunca precisou, ou por opção. A regra, lá fora, é, como eu já disse aqui várias vezes, cada um traduz para sua própria língua. Como corolário dessa regra, é comum uma agência americana processar traduções para o inglês contatando diretamente americanos, muitos dos quais moram nos EUA; quando a tradução é do inglês para outra língua, digamos, para o português do Brasil, entretanto, muitas vezes simplesmente subcontratam agências brasileiras. Isso não se dá exclusivamente com inglês > português: acontece com mil combinações. Dou este exemplo porque é o mais comum entre nós.

Há muitas agências e criptoagências brasileiras que vivem exclusiva ou quase exclusivamente desses repasses: pegam serviço de agências americanas e distribuem o serviço entre seus tradutores locais. Já foi um excelente negócio, quando o dólar estava batendo em quatro reais. Dava para tirar uma boa lasca para a agência e ainda pagar bem o tradutor. Hoje, com o dólar sentando em dois, já não é tão grande coisa e muitas dessas “agências de repasses” tiveram de reduzir a paga de seus tradutores.

O pior é que muita gente, muita gente mesmo, pega tradução de agência e redistribui a colegas, achando-se, também, no direito de tirar sua lasquinha, virando criptoagências. Nem duvido que os que recebem estes serviços ainda repassem a outros, também tirando sua lasquinha. Uma lasquinha de muito pouco é quase nada. Muitos quase-nadas fazem alguma coisa e tem gente que ganha umas boas quireras com as fatiazinhas que tira de traduções que repassa a colegas menos bem-relacionados no mundo das traduções.

No fim das contas, nesses casos, que faz a tradução fica com muito pouco, quase nada: a maior parte do dinheiro fica pelo caminho: de lasquinha em lasquiha, a paga vira uma migalha.

A agência que pegou o serviço lá fora está, por assim dizer, no andar térreo (“rés-do-chão” em Portugal, “primeiro andar” em alguns outros pontos do Brasil) e o tradutor está no terceiro ou quarto subsolo, virando toupeira de tanto não ver o sol.

Eu jamais repasso traduções. Se não posso fazer, procuro indicar um colega e pronto. Quer dizer, não estou nessa brincadeira. Mas muita gente está. Se você está atualmente trabalhando no quarto subsolo e ganhando a miséria das misérias, as migalhas que sobram da mesa dos outros, não se desanime. Aproveite para aprender. A escola do quarto subsolo é magnífica. A gente aprende a consertar relógio calçando luva de box. Com o tempo, você sobe para o terceiro, segundo e primeiro subsolos e, talvez até para o céu aberto.

Se acha que está sendo explorado (como eu acho que está), lute para subir e, quando vencer, não faça aquilo que você tanto condenou quando estava lá no fundo, nos subterrâneos da tradução.

… e, antes que me esqueça, amanhã tem Reunião na Sala 7, grátis.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


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