Regulamentação da profissão de tradutor

Sempre fui contra a regulamentação de profissão de tradutor. A mim, não vai afetar em nada, porque estou na beira da aposentadoria, de um modo ou de outro. Quer dizer, não se pode dizer que esteja falando em proveito próprio.

Acho que a história da regulamentação é muito mal entendida pelos próprios tradutores. Vamos ver se consigo esclarecer alguns pontos.

A regulamentação é uma lei que diz quem pode legalmente exercer a profissão. Mais ou menos o seguinte: pode exercer a profissão X quem tiver curso superior de X e todos aqueles que possam apresentar prova de Y anos de exercício profissional na data de publicação desta lei. Quer dizer, vai poder exercer a profissão legalmente que tem gradu de bacharel como tradutor e aqueles como eu, que há tempos são tradutores e podem provar.

Há certas coisas, entretanto, que a lei não diz:

Não diz que todo tradutor profissional vai ter serviço e, se tiver serviço, vai ser bem pago. Nenhuma lei pode garantir isso.

Não diz que somente os tradutores profissionais vão traduzir. Quem conhece o mercado sabe que a profissão de tradutor público e intérprete comercial, também conhecida como tradutor juramentado e, lamentavelmente, como tradutor oficial é regulamentada, mas o que tem de tradução juramentada feita por quem nunca foi nomeado para a profissão é uma barbaridade. O fato é que não existe maneira de dizer quem fez uma tradução. Fulano, que é profissional com registro no MTPS pega a tradução, repassa para Beltrano, que não tem registro; Beltrano faz a tradução, devolve a Sicrano, que faz de conta que revisa, assina e entrega. Cumprida está a lei, mas, ao proceder dessa maneira, Fulano, que é tradutor registrado no MTPS, colaborou para que Beltrano, que não é, fizesse uma tradução. Aliás, com a globalização da tradução e tantos de nós trabalhando para clientes estrangeiros, a fiscalização da lei fica mais difícil ainda.

Não diz que todos os tradutores profissionais vão ser capazes e competentes. Existe uma briga velha e boba entre os bacharéis em tradução e os bicões, como eu, que não fizeram curso específico de tradução, uns dizendo que os outros são um bando de ignorantes. O fato é que tanto entre os bicões como entre os formados em tradução (ou “formados em tradutor”, uma construção de que não gosto) há gente competente e incompetente e que, ao lado de faculdades sérias e eficientes há umas que, digamos, talvez deixem algo a desejar, se me faço claro.

Não diz que vai ser criado um Conselho Federal de Tradução e Interpretação e os respectivos Conselhos Estaduais de Tradução Interpretação e que vamos todos ter que pagar todos esses burocratas sem proveito algum para nós. Mas você pode ter certeza de que, se a profissão for regulamentada, a primeira providência vai ser criar toda a “estrutura”.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


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