Trabalhar para pesoas físicas

Trabalhar para pessoas físicas é sempre um problema. A maioria das pessoas físicas não entende por que tem de pagar para traduzir – e, mais ainda, por que tem de pagar tanto. Acham “um roubo” ou esperam que a gente trabalhe grátis para maior glória delas. Quer dizer, por exemplo, eu traduzir barato para facilitar a elas o acesso ao título de “doutor” em alguma coisa.

Tradutores públicos, que têm de tratar freqüentemente com pessoas físicas, sofrem muito com isso. Quando o serviço é grande, é pior ainda: a maioria das pessoas não se dá conta de quanto tempo se gasta para traduzir um livro. Então, o sujeito precisa ler o livro para sua tese de mestrado e vai procurar um tradutor – e fica surpreso com o preço.

No início de carreira, todo mundo faz tudo e eu não tinha medo algum de traduzir um livro sobre engenharia. Quando um engenheiro me pediu um orçamento, fiz lá minhas contas e cotei o preço. O engenheiro caiu das nuvens, afirmando que era o salário dele de um mês.

Eu retruquei que ele era um homem de sorte, porque eu precisaria de dois meses para fazer a tradução e ganhar aquele tanto – e não tinha férias, décimo terceiro, essas coisas. E, por cima, ainda tinha que comprar meu próprio equipamento. A resposta, sem dúvida, foi boa, e o próprio engenheiro concordou, mas acabei não ficando com o serviço: o homem não tinha como desviar um mês do seu salário para mim, não importa de quanto tempo eu necessitasse para fazer a tradução.

Provavelmente encontrou outra pessoa que fizesse o serviço “mais em conta” – mas isso não é problema meu: e problema de quem aceitou o trabalho por preço baixo demais.

Espero que você tenha gostado deste artigo. Amanhã tem mais.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


3 Comentarios em "Trabalhar para pesoas físicas"

  • Anonymous
    29/11/2006 (10:48 pm)
    Responder

    Confesso que este tem sido um dos motivos pelo qual tenho poucos contratos. Traduções do idioma com que trabalho, alemão, já é raro, e, muitas vezes, o cotratante não quer pagar o que a gente cota pelo serviço. Assim, resta ser paciente e não aceitar a primeira proposta com aquela indicação: teremos muito trabalho, se você fizer um precinho “camarada”. Certa vez um agente, dizendo ser “cardíaco”, pediu que eu lhe fizesse uma cotação e, uma oferta especial para trabalhos de intérprete. O fiz. Para minha surpresa, quando do pagamento, ele queria ignorar parte do período trabalhado.

  • Anonymous
    19/11/2006 (4:34 pm)
    Responder

    Tentei comentar sobre os falsos cognatos, logo abaixo do seu texto, mas não consegui. Então, aqui mesmo vai. Sobre falsos cognatos, registre-se também o Vocabulando, da Isa Mara Lando(que foi bastante ampliado recentemente). O vetusto “Arte de traduzir” do Breno Silveira, que foi relançado em 2004, contém lista de falsos amigos em inglês e espanhol. Há um livro do Ulisses W. de Carvalho que trata do assunto com qualidade. Nenhum supera o grande Agenor, que para tristeza geral não teve uma terceira edição.
    Francisco Fabiano
    [email protected]

  • Karen Tokuda
    18/11/2006 (3:33 pm)
    Responder

    Obrigada por compartilhar seus conhecimentos com a gente!

    Cada palestra, mensagem de orkut, e agora cada postagem no blog, nos ensinam muito!

    Até amanhã!


O que achou do artigo? Deixe seu comentário.

Pode publicar em html também