Tradução não é futebol

Volto, depois de um breve intervalo para desabafo, ao meu Arquimedes e a história dos glossários.

Por que essa turma pega um glossário e pensa que, com ele, dá conta do recado? Basicamente em razão de um preconceito contra a tradução técnica. A turma acha que tradução técnica é mera substituição de palavras ou, no máximo expressões. Santa ignorância! Polissemia e ambiguidade, metáforas, anáforas, catáforas e todos esses monstrengos que atemorizam o tradutor literário atormentam o tradutor técnico também, embora nem sempre quem “pega” uma tradução técnica para fazer repare nessas coisas e, como sempre, é aí que mora o perigo.

Manda a boa técnica que o tradutor procure, antes de escrever uma palavra do texto de chegada (ia escrever “por uma palavra no papel”, mas ninguém mais faz isso), entenda o que o autor disse (ou quis dizer, o que nem sempre é a mesma coisa). Traduzir sem entender é candidatar-se a ser substituído por um computador, que também traduz tudo sem entender nada — além de trabalhar mais depressa e mais barato que o tradutor humano.

A melhor ferramenta para entender um texto ainda é o dicionário unilíngue. Uma vez decifrado o texto, entendido o sentido dos termos menos conhecidos do tradutor, é que vale a pena ver um glossário bilíngue O glossário pode não tiver a palavra, mas, se você entendeu o texto, tem mais chance de achar uma solução. Dependendo da situação, pode ser necessário conferir tudo com um dicionário unilíngue, para ver exatamente o que é o quê. Às vezes, muitas vezes, nada do que o glossário oferece corresponde a qualquer possível significado do termo no original e a pesquisa tem de se estender por outros campos.

O que não pode é ficar trocando palavrinha de uma língua por palavrinha do outro e, depois, quando questionado, dizer “bom estava num glossário que me deram”. Isso não é traduzir, é chutar e tradução não é futebol. Juro!

Até amanhã e obrigado pela visita.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


3 Comentarios em "Tradução não é futebol"

  • Sandra Navarro
    22/10/2009 (11:16 am)
    Responder

    Danilo,

    Gostei muito do post.

    Você tocou em verdadeiros mitos da tradução técnica: achar que "com um dicionário, qualquer um traduz", ou que "na tradução técnica, o estilo não importa". Talvez por isso muitos clientes prefiram contratar um engenheiro para traduzir um manual a um tradutor especializado… Ledo engano!

    Aliás, arrisquei escrever alguma coisa sobre isso no meu blog. Se interessar:

    http://navarrosandra.wordpress.com/2009/08/16/myths-about-technical-translation/

    http://navarrosandra.wordpress.com/2009/08/23/breve-reflexao-sobre-os-dicionarios/

    Parabéns pelo blog!

    Sandra Navarro

    ps: assisti sua palestra na sBS da Vila Mariana, no dia 02/10. Talvez você lembre de uma pessoa que chegou bem atrasada, sentou na frente e ainda precisou sair mais cedo… 🙂

  • Wildcat
    22/10/2009 (4:13 am)
    Responder

    Tem que não quer pagar um tradutor pra fazer o "abstract", eu mesmo faço! dizem. Aí sai algo assim: http://bdjur.stj.gov.br/xmlui/handle/2011/18477

    No big deal, I just think it is funny, especially "smallest" as a synonym of "minor"…

  • Felipe
    20/10/2009 (11:11 pm)
    Responder

    Teve um caso de um revista da minha cidade natal, da qual o dono contratou um 'tradutor' para fazer uma edição trilingue, especialmente para a feira que tem por lá, muito importante para o setor sucro-alcooleiro. O cara contratado é um professor respeitado na cidade, de inglês e espanhol, e ficou a cargo de traduzir, para as duas línguas, os textos originalmente escritos em português. Foi uma vergonha em papel, pelo menos a parte em espanhol, a qual me ative por razões óbvias, continha erros ridículos de gramática, básicos, que um professor não poderia cometer. Fico pensando se vale a pena contratar alguém para fazer um serviço porco como esse, e levar o nome da revista ao desprestígio total, só porque compartilham a idea de que tradução qualquer 'professorzinho' faz.


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