Tradução técnica, científica, pragmática….

Sou estudante de tradução francês, curso o segundo semestre. Estou perdida com os termos tradução técnica, especializada, pragmática, científica… não consigo defini-los nem diferenciá-los claramente. Agradeço se poder me ajudar.

Abraço, Sara!

Antigamente, falava-se em tradução literária e técnica. O que não era uma, era outra e estava acabado. Mas é uma posição simplista demais, porque tradução técnica, no ver de muitos, se refere exclusivamente a assuntos, digamos, industriais, coisas de engenharia, mas não incluiria finanças, direito ou mesmo ciências puras.

Então, foi proposta a oposição entre tradução literária (textos com valor estético, mas sem utilidade prática) e tradução pragmática (textos com utilidade prática mas sem valor estético). Mas esta classificação também é frágil, porque deixa no limbo coisas importantes, tais como a tradução de textos religiosos, área dificílima e objeto de estudos muito avançados, bem como diversos tipos de tradução na área de humanidades, onde a mistura entre considerações estéticas e pragmáticas é grande. Sem falar na área de publicidade, desdenhada pelos teóricos, porque envolve “comércio”, mas que tem uma problemática extraordinariamente interessante, para quem não tem o cérebro tolhido e atrofiado por ideologias.

Então, começa-se a falar em tradução especializada. Ou seja, eu faço especializada, porque só lido com algumas áreas específicas, como finanças e tributação. Outros colegas fazem engenharia, medicina, ciências puras e assim por diante. Outros, ainda, fazem psicologia e por aí em fora. Pode ser, mas aí fica a literatura como “não especializada”, o que me parece uma pena, porque traduzir literatura é, a meu ver uma especialização como qualquer outra.

Na verdade, a maioria dessas classificações foi criada por teóricos que se interessam basicamente pela tradução do que consideram grandes obras literárias (o que exclui Bianca, Sabrina & Júlia, e ficção de massa, como Harry Potter) e têm um desprezo mal escondido pelo que faz a maioria dos tradutores, que é exatamente a tradução de textos que não se classificam como grandes obras literárias. Essas classificações desprezam o fato de que toda tradução envolve considerações estéticas e estilísticas, mesmo a tradução da mais seca lista de peças. Basicamente, lá no fundo, no fundo, querem dizer “tradução da grande literatura e o resto”. “Resto” é o que faz a maioria de nós.

Na verdade, em vez de compartimentos estanques, há uma gama, onde, em um extremo, há certos tipos de poesia lírica e no outro as listas de peças, mas as transições entre um tipo de outro jamais são claras e precisas. Quanto mais se conhece sobre tradução, menos confiança se deposita nesses rótulos.

Finalmente, temos a tradução científica. Num momento em que se falava em literária (alto status) versus técnica (baixo status), a turma que fazia ciências puras preferiu se autodenominar tradutor científico, para ganhar um pouco mais de cacife, destacando-se da turma “meramente” técnica. O mesmo aconteceu com o pessoal que fazia jurídica, médica e assim por diante, num desejo claro de se divorciar da pecha de meramente lidar com porcas e parafusos. Quer dizer, química teórica é tradução científica, não técnica. Certo. Mas um texto de química industrial, o que é?

Se você adotar o termo tradução pragmática ou tradução especializada, qualquer um dos conceitos abarca tradução técnica, científica, jurídica, financeira, médica e que mais seja.

Aliás, Sara, se você faz francês (Onde? A gente gosta de saber dessas coisas. Poste um comentário informando, por favor.) essas coisas têm muito menos interesse que para a turma do inglês. O mercado francês é menor e menos diferenciado que o do inglês e, se você pretende se profissionalizar, quer dizer, ganhar a vida exclusivamente traduzindo francês, provavelmente vai ter que fazer um pouco de tudo.

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


2 Comentarios em "Tradução técnica, científica, pragmática...."

  • AMADJA
    20/05/2015 (12:28 pm)
    Responder

    BOM DIA.
    Sou professora de arquitetura e urbanismo e faço parte de um grupo de pesquisa sobre um autor francês Henri Lefebvre, filósofo e sociólogo), cuja obra é muito importante para nosa linha de pesquisa, mas tem pouca coisa traduzida. Utilizamos o exercício da tradução para aprofundarmos o conhecimento sobre várias temáticas dos seus mais de 40 livros publicados entre os anos 1940 e 1990.
    Depois que li suas explicações fiquei mais embananada ainda. O que é ótimo, do meu ponto de vista. Pode me dizer como classifimarmos o que fazemos?
    Amadja

  • Sara
    06/05/2008 (5:55 pm)
    Responder

    Estudo na UNB.
    Muto obrigada pela ajuda. Só não foi bom ter conservado “se poder me ajudar”… :(!
    Valeu mesmo, logo mandarei mais perguntas.


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