Você foi bem-sucedida na tentativa?


“Você tem sido bem-sucedida em sua tentativa de aprender inglês? O marido de uma amiga minha falhou e consequentemente não foi promovido na corporação em que trabalhava.”

Se eu encontrar uma bobagem dessas numa tradução que estiver revisando, troco logo para “Você está conseguindo aprender inglês? O marido de uma amiga minha não conseguiu e, por isso, não foi promovido no serviço” e aviso o cliente para procurar um tradutor melhorzinho ou, ao menos, para avisar o vivente que é para traduzir para o português, não para o anglunhês.

Essas coisas num texto traduzido são indesculpáveis: a isso se chama contaminação. Num texto escrito originalmente em português, são piores ainda e devem ter outro nome. No entanto, não há dia em que não se encontrem os famosos “falhou em” e “foi bem-sucedido em” na nossa imprensa e em mil outros lugares.

Outra é o “fortemente”. Gente que tem horror a advérbios e diz, metodicamente “de forma metódica” para evitar o sufixo -mente, este pária da língua, diz “fortemente” só porque, no mesmo lugar, o inglês diria “strongly”. “Sistemas fortemente correlacionados” são “sistemas com grande correlação”, “recuou fortemente” é “sofreu/teve um grande recuo”

O mais curioso é que essa gente escreve português como se fosse inglês, mas escreve inglês como se fosse português: o mais puro tupiniquinglish. Quer dizer, esqueceram uma língua sem terem aprendido a outra. É um feito, convenhamos.

Obrigado pela visita, deixe seu comentário, dê um pulo aqui, se é que ainda não conhece — e volte amanhã.

PS: Já tinha publicado isto quando topei com um “poderão não atender”. Em português, se diz “talvez não atendam”. Eita ferro!

EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


20 Comentarios em "Você foi bem-sucedida na tentativa?"

  • Isabela
    16/07/2010 (12:43 pm)
    Responder

    Caros, Danilo e Kelli, eu é que agradeço pelos comentários de vocês, já que passei aqui por acaso. (Mas acho que vou ficar!)

    Gostei, especificamente, Danilo, das suas posições; da sua maneira de perceber o que acontece. Exemplo: que traduzir significa escrever em língua portuguesa… e, portanto, o tradutor é alguém que primeiro conhece a sua própria língua. (Ou ao menos tenta, o que já vale, já que a língua portuguesa, bem falada e bem escrita é para poucos.) Você muda o foco, e rema contra a correnteza, quando a maré diz que todo mundo se mata de esforço(deve ser matar)para “ser bacana” em outra língua… Mais um reflexo da nossa clássica baixa auto-estima, e de que vivemos olhando ao lado; a grama do vizinho é sempre melhor! Os portugueses, ao menos, são mais orgulhosos de si.

    Fiquei pensando muito na sua colocação sobre o congresso, em que se ria dos erros dos colegas. Desrespeito como mentalidade. Agradeci pelo prumo que a professora deu aos tradutores, quando revelou o que, de fato, estava acontecendo ali. Pensei no porquê disso acontecer. Ocorreu-me algo entre pedantismo e insegurança. Usar da língua para fazer-se de superior sobre o outro. (Olha que isso também dá um interessante artigo.) Como intérprete isso já me ocorreu várias vezes: identificar que nas entrelinhas o que está dito é: “eu sou melhor (ser humano, pessoa, tudo!) que você, se falo melhor que você a língua.” Essa parece ser a corrente dominante.

    Por fim, gostei, sobretudo, da sua fala sobre tradução ruim: “tradução ruim a gente joga fora. Revisão não conserta tradução ruim.” Quando o barato sai caro devia ser o título do artigo… A fala é dolorosa, mas verdadeira.

    Um abraço,

    Isabela

  • Isabela
    14/07/2010 (11:28 pm)
    Responder

    Danilo,

    Entrei hoje aqui, por acaso, e adorei tanto seus textos, como seus comentários. Ao contrário do que disseram uns, não achei você rude; achei de uma clareza e lucidez invejáveis. O que você faz é prestação de serviço, é pedagógico. Obrigada pela consciência e pela referência; pelos parâmetros de atuação que ajudam a todos, incluindo o cliente.

    Só uma coisa: concordo com parte do comentário do Anonymous; a revisão, assim como a tradução, é subjetiva. Muitas vezes corrigem-se coisas que não são erradas. O ato é ideológico e não ortográfico. Nesses casos, confesso, me canso.

    Ainda um outro fenômeno: há palavras (técnicas) que são ditas pelo meio específico de uma forma, talvez, gramaticalmente errada, mas que é como aquelas pessoas falam aquilo: “empoderamento” para empowerment, “ancoramento” para grounding, por exemplo, no meio terapêutico. Essa é a maneira como a casta fala aquilo. Certo ou errado, não cabe a mim transformar todos os falantes do grupo específico… a função é comunicar. Não estou falando de tempos verbais, etc… estou falando de certos vocábulos que vão se criando, sendo cunhados, mesmo, por pegar-se uma palavra técnica de outra língua, e usá-la. Deve prevalecer, no meu ponto de vista, a maneira como aquele grupo diz aquilo. Afinal, a tradução atende àquelas pessoas. Já vi intérprete simultâneo rodar em congresso (muito criticado mesmo) por não conhecer a maneira específica pela qual a assembleia chamava algumas coisas. As pessoas não querem saber se a palavra existe ou não, se é neologismo, anglicismo, ou eufemismo; elas querem é entender o que está sendo dito, de uma maneira como estão acostumadas a falar. Por isso procuram alguém do meio, alguém que saiba como elas dizem aquilo, para fazer seja a interpretação que a tradução. E isso me parece legítimo.

    Um abraço,

    Isabela

    • danilo
      15/07/2010 (9:54 am)
      Responder

      Isabela, obrigado pelo comentário. É curiosa, realmente, essa minha reputação de rudeza. Não nego que, de vez em quando, eu dê lá minhas patadas, mas acho que nisso não sou muito pior que a média. Mas essa história é complicada demais para analisar aqui. Um dia até talvez gere um artigo.

      Teu comentário toca dois pontos importantes: um, o da subjetividade que permeia todo o serviço de tradução e revisão; outro a dicotomia entre que existe entre “o certo” e “o que o leitor-alvo usa”. Matéria para dois longos artigos. Acho que vou escrever sobre ambos os assuntos na primeira semana de agosto de 2010 (estou escrevendo esta nota em julho de 2010).

    • Kelli
      15/07/2010 (3:10 pm)
      Responder

      Isabela, obrigada pelo comentário. Há tempos eu queria escrever exatamente isso que você escreveu, para um amigo, mas as ideias não ficavam assim coerentes e claras. Vou mandar o link para ele já.

  • denise bottmann
    01/02/2010 (6:56 pm)
    Responder

    quaquá! e depois, quando o leitor reclama desses textos a machado, ou de simples decalque, a galera vem dizer que o leitor não sabe do que está falando, que não estudou minuciosamente o original e não fez um cotejo detalhado com a tradução antes de comentar, e que portanto o leitor devia mas era ficar quieto – aliás, caso recente nas plagas tradutórias.
    e que paciência a sua, danilo, com os chatonildos de plantão!

  • Lenita
    09/10/2009 (9:31 pm)
    Responder

    Gostei muito dessas suas observações, Danilo.
    É terrível revisar algumas traduções. Às vezes dá vontade de traduzir o livro todo de novo, não é?

    "Num texto escrito originalmente em português, são piores ainda e devem ter outro nome." Também acho. É muito feia essa prática atual de se escrever em anglunhês.
    Abraço,
    Lenita

  • Danilo Nogueira
    07/06/2009 (9:46 pm)
    Responder

    A formação de advérbios em -mente a partir do feminino dos adjetivos (quando estes têm duas formas, claro) é livre em português. Há tantos e tantos, que nenhum dicionário tem todos. Quer dizer, nem você, nem sua revisora nem ninguém tem muito como dizer se "importantemente" existe.

    Sem ver a frase toda, também, é difícil opinar. Entretanto, me parece que a revisora fez a alteração só para mostrar serviço.

  • Anonymous
    30/05/2009 (6:12 pm)
    Responder

    A minha revisora ao ver que eu tinha traduzido de “importantly” como “de forma importante”, alegremente apagou e colocou importantemente… Que não sei nem se existe em português!

  • Danilo Nogueira
    21/04/2009 (11:07 am)
    Responder

    Emilio,

    Não há nada de errado com “ser bem sucedido”: “ele é um tradutor bem sucedido, não lhe falta serviço” é perfeito. Mas dizer “ele foi bem sucedido em sua tentativa de fuga” em vez de “ele conseguiu fugir” é anglicismo.

  • Danilo Nogueira
    21/04/2009 (11:05 am)
    Responder

    “Arte e Prosa”,

    Já pensei nisso, mas sucede que obter uma identidade falsa na Internet é tão fácil, que é muito difícil saber se o signatário do exto é realmente que se pensa que é. Houve um caso divertido, até, em que um espírito de porco criou um endereço hotmail com o meu nome, para fazer crer que eu tinha feito certas coisas que nunca me passou pela cabeça fazer.

    Rejeito spam, rejeito pedidos de tradução grátis e o que poderia constiuir crime contra a honra, de acordo com o Código Penal. O resto, deixo passar.

  • Emilio Pacheco
    21/04/2009 (4:37 am)
    Responder

    Eu não tinha percebido, mas incorro em diversas dessas “contaminações” em minhas traduções. Talvez porque trabalho muito com contratos e petições, então fico receoso de “adaptar” o original por serem documentos oficiais. E também porque cresci lendo gibis traduzidos, onde “ser bem sucedido” era uma expressão frequente, bem como outras que depois vim a conhecer no original (“tudo está bem quando acaba bem”, “se não se pode com eles, junte-se a eles”, etc.).

  • Arte e Prosa
    20/04/2009 (8:07 pm)
    Responder

    Danilo,

    Fosse eu, não postaria um comentário de um anônimo. Principalmente porque este blog não precisa!

  • Danilo Nogueira
    20/04/2009 (12:15 am)
    Responder

    Meg, não sei exatamente ao que você se refere, mas tenho certeza de que a maioria dos que postam como “anônimos” faz mesmo por puro descuido.

    Poucos, muito poucos, são os que se “escondem” no anonimato. Mas eu não me zango. Morro de curioso por saber quem está escrevendo, mas não me zango com o anonimato.

    Meia dúzia de vezes, rejeitei comentários porque eram mero spam. O resto, é o que você tem visto.

    Fico contente por ver que o número de comentários está aumentando. Às vezes, dá um medo de estar escrevendo para ninguém ler, uma sensação de vazio, uma coisa ruim.

    Já disse isso aqui, mas vale a pena repetir: quando comecei, não sabia, mas agor percebi que o que dá força ao blogue são os comentários.

    d.

  • Meg
    19/04/2009 (11:16 pm)
    Responder

    O melhor é postar como Anônima e assinar com seu nome depois.

    Moral do dia: revise seus comentários antes de enviar.

  • Roberto Bechtlufft
    16/04/2009 (8:28 pm)
    Responder

    Post impagável, comentários ainda mais, rs…

    Não comento faz tempo porque sou um canalha, Danilo, mas estou sempre acompanhando o blog e leio todos os posts.

    Um abraço e tudo bom!

  • Anonymous
    16/04/2009 (7:16 pm)
    Responder

    No meu tempo, a acepção acima de conhecer era transitiva direta. E o “lhe” equivocado é outra praga que vem assolando a língua!
    Raquel

  • Danilo Nogueira
    16/04/2009 (5:28 pm)
    Responder

    Volte amanhã, então, e depois me diga se sua bola de cristal está funcionando bem.

    Esperemos, então. Lamento muito, mas não posso me estender na discussão agora. Por mim, ficaria aqui o dia todo tagarelando com os colegas, mas não posso.

  • Anonymous
    16/04/2009 (5:20 pm)
    Responder

    Ah sim, mas eu pensei que não fosse preciso dizer: há maneiras várias de se dizer ao cliente que o tradutor “original” derrapou na curva. E tendo a presumir que você não é adepto das mais “soft”.

    Não lhe conheço, mas posso imaginar o que vem pela frente. Esperemos.

    De todo modo, admiro tudo isso aqui.

  • Danilo Nogueira
    16/04/2009 (4:52 pm)
    Responder

    Aí é que você se engana, colega.

    Uma das minhas obrigações, quando atuo como revisor, é informar o cliente sobre a qualidade do texto que me enviam. Quando por outra razão não fosse, para justificar o valor cobrado.

    Quando termino meu trabalho, o texto tem que estar não só correto e inteligível, como também parecendo português de gente, não coisa do Babelfish. É isso o que o cliente espera de mim e para isso que me paga.

    Cobro serviço de revisão por hora e, por isso, preciso justificar o tempo que gasto no meu trabalho. Se o tradutor “tiver falhado na tentiva” de escrever direito e o texto precisar de muito trabalho para ficar decente, cobro mais e o cliente me pergunta a razão.

    Se o cliente quiser manter o tradutor, que o mantenha, mas sabendo que vai ter de me pagar mais pela revisão. Essa é uma das nossas salvaguardas contra os clientes que metodicamente procuram o tradutor mais barato e esperam que o revisor, por uns poucos tostões, torne perfeito um serviço que nasceu mal feito.

    Quanto ao “prejudicar”, colega anônimo, é uma observação tão interessante que vai virar artigo do blogue amanhã. Independentemente de sua intenção, você me deu uma excelente ideia, pela qual sou grato.

  • Anonymous
    16/04/2009 (4:01 pm)
    Responder

    Talvez você tenha razão, sim. Mas talvez também esteja prejudicando alguém (ao “avisar o cliente”, coisa que foge da tua alçada), por exemplo, em começo de carreira; sim, é bem provável que não seja isso, mas pode ser, não pode?

    Podendo, penso que é compreensível e desculpável e que é de bom tom você ficar calado, fazer o seu trabalho e receber o pagamento, sem chiliquinho, mimimi, similares e genéricos.

    Bonito pode não ser, mas errado também não está, e segundo me parece, antes certo e compreensível (porque os seus exemplos a despeito de feios são absolutaMENTE inteligíveis) que errado.

    Pense nisso, Sr. Paladino das Traduções Bem-sucedidas (!).


O que achou do artigo? Deixe seu comentário.

Pode publicar em html também