Você traduziria um filme pornô?

Meu primeiro encontro com cinematografia pornográfica se deu lá pelos 13 anos. No meu tempo, para a minha idade, o maior escritor do Brasil era Carlos Zéfiro e fiquei todo satisfeito quando um colega mais velho me convidou para uma sessão particular de filminhos. Foi num domingo de manhã, numa sala discreta do então Ginásio Estadual “Professor Ascendino Reis”, que, na época, ainda funcionava de favor nas dependências do Grupo Escolar “Visconde de Congonhas do Campo”, que ainda está no mesmo prédio, na rua Tuiuti, esquina Padre Estêvão Pernet, que se chamava Rua do Ouro, na época. A projeção estava a cargo do zelador do colégio, que tinha chaves de todas as portas e salas e nos abriu o colégio no domingo. Fui, digamos, uma experiência estética e tanto.

A sessão saudade aí acima foi motivada pela pergunta de um colega no Orkut, que queria saber se nós traduziríamos filmes eróticos, que trafegou por vários campos inclusive pela diferença entre erótico e pornográfico.

Antes de discutir o problema ético, gostaria de abordar o problema técnico: nunca traduzi filme algum, muito menos eróticos ou pornográficos, mas não creio que seja tecnicamente fácil. Todo tipo de tradução tem sua dificuldade específica e, para os filmes eróticos/pornográficos, como para todos os outros, deve haver bons e maus tradutores e más traduções. É claro que a audiência não está muito interessada na tradução, mas isso não isenta o tradutor da obrigação de caprichar.

Depois vem a história da oposição entre erótico e pornográfico, que me parece importantíssima, porque conduz a uma reflexão mais ampla. Não existe uma linha divisória clara entre erótico e pornográfico. Os extremos de cada gênero são facilmente identificáveis. O filminho que eu vi no colégio era decididamente pornográfico, mas existe muita coisa que fica, assim, com um pé de cada lado da divisa. É uma gradação contínua, que vai do mais vil pornográfico até a mais aguada comediazinha de família, passando pelos filmes meramente picantes, o que quer que isso signifique. E isso sem pensar nos documentários e filmes de treinamento, por exemplo.

Do ponto de vista ético, temos um quadro ainda mais interessante. O jovem colega que fez a pergunta diz que estuda em uma Universidade Cristã e que esse tipo de indagação é normal por lá. Sem dúvida, digo eu, que sou agnóstico. O que é anormal é alguém pensar que preocupações éticas são peculiares a estabelecimentos religiosos. Agnósticos e ateus têm tremendas preocupações éticas, talvez mais pesadas ainda que as enfrentadas pelos religiosos, porque entre agnósticos e ateus, não recorremos a fonte nenhuma que não a nossa consciência para resolver esses problemas. Quer dizer, não transferimos a responsabilidade para o pastor que conduz a grei ou para um livro sagrado. Ser agnóstico é muito complicado. Ser ateu também deve ser.

Mas a pergunta é, eu, Danilo Nogueira, traduziria? Acho que sim, sem maiores problemas. Provavelmente, ia enjoar no segundo e recusar o terceiro, mas isso não teria nada que ver com ética. Digo mais, acho que há filmes muito piores que os do cinema erótico/pornográfico, filmes de uma violência ímpar, que banalizam o mal e me parecem muito mais danosos que qualquer cena de sexo explícito.

Entretanto, cada caso é um caso e há certas coisas que eu recusaria. Ouvi dizer que há filmes com estupros e isso, para mim, não é erotismo nem pornografia: é violência e crime. Também é crime a pedofilia e, mesmo que não fosse, meu estômago não iria aceitar. Não se pode generalizar.

Agora, uma pergunta final às pessoas religiosas e que levam sua religião a sério. Imagine a seguinte situação: você recebe um filme para legendar, começa a rodar o filme e fica revoltado: a primeira cena é uma criança sendo estuprada. Contendo o ódio, nojo e revolta, você telefona para a polícia e denuncia. Certo? Meia hora depois, liga um membro da sua igreja e diz estamos montando um comitê de ação sobre pedofilia e precisamos legendar um filme para uso do comitê. Vou avisando que é brabo. Você topa? Ao examinar o filme, você vê que é exatamente o mesmo que você tinha recebido pouco tempo antes. E aí, o que você faz?



EN→PTBR |Tradutor profissional desde 1970.


9 Comentarios em "Você traduziria um filme pornô?"

  • Sheila
    18/01/2011 (4:50 pm)
    Responder

    Também sou tradutora e faço minhas a suas palavras Danilo, em relação ao um uso determinado para tal filme. E até pelo fato de entrar em contato com uma realidade muito presente no mundo, mesmo que não próxima a mim. Saber os fatos envolvendo tal situação pode ajudar no mínimo a estabelecer um entendimento do real alcance da mesma. Tenho um filho de 15 anos e sempre penso que ás vezes as situações podem estar muito mais próximas do que imaginamos. Então aproveito qualquer oportunidade que aparece para discutir esses assuntos com meu filho, bem como com outras pessoas próximas, e assim, quem sabe, propiciar subsídios para que elas possam se proteger e/ou ajudar outras pessoas.

  • Danilo Nogueira
    14/11/2009 (10:17 pm)
    Responder

    Bom, Gabby, você tem que pensar com sua cabeça. Mas eu, aqui, Danilo Nogueira, não teria coragem de traduzir um site sobre pedofilia — salvo se fosse para alguém como aquele senador Magno Malta, que está caindo de pau na pedofilia. Para esse, eu traduzia com gosto.

  • Gabby
    14/11/2009 (10:14 pm)
    Responder

    Olha, eu estudo tradução e eu penso que a responsabilidade do tradutor é somente traduzir de maneira competente, entregar a mensagem sem perder a integridade.
    Eu até me preocupava, mas agora…não me importo, eu quero ter um leque rico de experiências, passear por diversas áreas.
    Eu tenho em mente que a responsabilidade é do emissor da mensagem, ou seja, quem falou ou escreveu, o papel do tradutor não é emitir juízo de valor sobre o conteúdo que lhe cai em mãos.

  • Amauri
    09/09/2008 (2:28 am)
    Responder

    Pôxa, Danilo, questão complicada.

    Mas a questão ética não gira somente em torno do material a ser traduzido, mas também em torno de sua finalidade.

    No primeiro caso, talvez por falta de informação (pelo menso ela não está na sua história hipotética), eu pudesse rejeitar o trabalho sabendo que o filme ia ser usado para satisfazer a mente de algum pedófilo. Já no caso da Igreja, legendaria, não por ser da Igreja, mas pelo simples fato de que o filme seria usado contra a pedofilia, independentemente se fosse para a Igreja, para a Polícia Federal ou para um centro de Umbanda.

    Também não concordo com esse lance que foi dito, de que “dinheiro não tem cor”, porém naõ decidirei a cor do dinheiro de ninguém, e também não quero ninguém pintando minhas notas.

    Abraços,

    Amauri

  • lucia fontes
    07/09/2008 (4:38 am)
    Responder

    Danilo, adoro seu bom senso. Não tenho feito visitas muito freqüentes ao seu blog, mas sempre que consigo passar por aqui aprendo muito. Você fala que preocupações éticas não são peculiares somente a estabelecimentos religiosos, e que agnósticos e ateus têm apenas a própria consciência para resolver esses problemas (particularmente interessante sua frase “… não transferimos a responsabilidade para o pastor ou para um livro sagrado”. Não sou agnóstica, não sou atéia, mas não acredito em transferir responsabilidades para outras pessoas, deuses, entidades, livros ou leis ditas sagradas. Um dos grandes problemas das religiões é eximir a responsabilidade do ser humano pelos seus atos. Seria correto dizer que ética tem muito mais relação com a consciência do que com a religião? Porque quem tem ética tem, independente de seguir ou não uma linha religiosa. Da mesma forma, quem não tem, não tem. Com relação a “o que traduzir”, penso como você: filmes ou textos que promovam violência e crime não fazem parte do meu repertório. Quanto à última pergunta, mesmo sendo novata na área, eu recusaria o trabalho novamente, pois não conseguiria dormir depois de ver as cenas do filme. É em prol de uma boa ação – combate à pedofilia -, mas existem várias outras maneiras de atuar na proteção infantil. Ao colocar minha cabeça no travesseiro eu agradeceria pelos médicos, policiais e agentes que trabalham encarando de frente esses criminosos.

  • Camilinha
    01/09/2008 (3:40 pm)
    Responder

    Tenho uma religião que sigo, mas também sou profissional. Se o filme cumpre os “meus requisitos pessoais”, ou seja, atores maiores de idade, empresa estabelecida, com CNPJ, Inscrição Estadual e Municipal, e que paga em dia, por que não?

    Como em todas as áreas, rola muita hipocrisia. Tem comerciante que vende bebida e cigarro pra menor e acha normal. E aí, qual é o seu limite?

  • Ivan Cortez
    01/09/2008 (2:45 pm)
    Responder

    Concordo com vc, Denise! Infelizmente,existem profissionais corruptos em muitas atividades…

  • denise bottmann
    01/09/2008 (1:06 am)
    Responder

    tomara que eu nunca tenha que enfrentar algum dilema desse tipo, nem movida pela fome.
    não aceitaria, de maneira alguma, e não por ser cristã (sou agnóstica tb, como vc diz). mas o dia em que eu tiver que encarar meu trabalho como se o conteúdo dele não tivesse nada a ver com minhas opções pessoais, tá danado 🙂
    resumindo, tem gente que diz que faz qq serviço porque dinheiro não tem cor – não acredito nisso, acho que dinheiro tem cor sim, e acho que existem vários dinheiros: o da pornografia, o da lavagem, o de contrabando, o da pedofilia, vários dinheiros, e alguns cheiram mal.
    bom, sei lá, por sorte nunca tive que enfrentar esse tipo de situação.

  • Ivan Cortez
    31/08/2008 (6:19 pm)
    Responder

    Aff… Questão complicada!


O que achou do artigo? Deixe seu comentário.

Pode publicar em html também